Filho de um dos maiores nomes da literatura pop, Joseph Hillstrom King, conhecido por Joe Hill, está de volta após quase uma década desde seu último lançamento. Com a estreia de O Sacrifício (King Sorrow, em inglês), que chega ao país pela HarperCollins, o herdeiro de Stephen King fala a VEJA sobre suas inspirações e reflete sobre o processo de escrita do livro de quase 800 páginas. A trama acompanha Arthur Oakes, um estudante que descobre um ritual para invocar um dragão através de um diário místico e acaba envolvido em um pacto que exige uma série de sacrifícios humanos anuais para manter a criatura viva. Confira a conversa:
Por que voltar agora, após quase uma década? Meu último livro, The Fireman, saiu em 2016 e foi minha segunda produção longa lançada em um curto período de tempo. Eu escrevi durante todos os dias da minha vida, por 30 anos. Comecei quando ainda tinha 13 anos e eu escrevia a qualquer momento e sem descanso algum, fosse em festas, fins de semana ou feriados. Não tenho certeza se isso foi emocionalmente saudável, mas foi o que fiz. A questão é que eu me apaixonei e me casei novamente e nós tivemos gêmeos. Depois que eu e Gillian nos unimos, pensei: “Eu realmente acho que quero colocar a escrita de lado por um tempo e fazer minha família o centro da minha vida”. Então, nesses últimos 10 anos estive focado em ser casado e cuidar dos meus filhos, mas em um certo ponto já era hora de voltar a trabalhar e eu sabia que teria que escrever outro livro. Eu tinha boas ideias para um projeto, mas também pensei que gostaria de fazer meu primeiro livro dedicado à minha esposa.
Como foi o processo de escrita de O Sacrifício? Foi ótimo. Eu me diverti muito. Eu sabia que este seria um livro grande, mas foi ficando cada vez maior e quando me dei conta já havia seis personagens centrais e cada um deles atuava como a estrela da própria história de terror. Eu tinha um escopo muito amplo de personagens, que cobre 25 anos, e realmente nunca tinha escrito nada naquela escala antes. Passei três anos escrevendo O Sacrifício, comecei por volta de 2020 e criei o primeiro desenho em 2022. Por se tratar de um livro grande e que precisou de uma longa revisão, o projeto acabou demorando alguns anos antes de ser publicado.
O que o motivou a escrever essa história? O livro tem várias fontes de inspiração, mas eu acho que a principal é Smaug, do J.R.R Tolkien [autor de O Hobbit], porque é o meu personagem favorito da ficção. Por que nós amamos dragões? É curioso, há tantos ótimos livros sobre dragões e eles realmente estão em alta agora, estão em todo lugar na ficção. Para ser sincero, eu semore quis escrever sobre um personagem como esse. Queria ter meu próprio Smaug, então O Sacrifício é quase como um adjacente dele.
Como foi lidar com a influência de seu pai na literatura e trilhar seu próprio caminho nessa indústria? Eu falo muito sobre influência, sou fascinado por isso. Há muitos escritores que eu adoro e com quem aprendi muito, mas em termos de iluminar um caminho para o meu próprio trabalho, eu diria que esses ídolos são apenas ‘velas’. Meus pais – esses sim – são como holofotes para mim. Não tem como comparar a influência deles. Eles são minhas maiores referências e todo o resto fica muito distante no impacto na minha imaginação e no meu pensamento sobre o mundo.
Como nasceu sua relação com a obra do seu pai? O primeiro livro do meu pai que li foi It – A Coisa, aos 13 anos. Li em forma de manuscrito e aquilo era tão grande que chegava quase até o meu pescoço, como se fosse uma torre de papel. Eu chegava da escola e meus pais estavam em seus escritórios escrevendo. Eu pensava: “É isso que devo fazer. Apenas sentar sozinho por uma hora todos os dias e escrever coisas”. Mas foi quando eu entrei na faculdade que comecei a pensar seriamente sobre ser um escritor. Naquela época eu achei que publicar um livro sob o nome Joseph King pudesse ser perigoso caso fosse feito numa má qualidade.
Como lidou com o peso do sobrenome? Quando os leitores são bem inteligentes, eles podem até ler um dos seus livros porque você tem um pai famoso, mas se não for bom, eles nunca mais irão ler nada seu. Eu queria ter uma carreira longa, mas também tinha problemas de imagem e eu precisava saber que, quando eu vendia algo, era pelas razões certas. Eu era muito ansioso e eventualmente precisei lutar contra essa ansiedade. Então, comecei a assinar como Joe Hill e guardei o segredo de quem era meu pai por cerca de 10 anos. Foi quando vendi um livro de histórias curtas para uma pequena imprensa em Inglaterra que minha carreira começou. Eu fiz aparências em convenções e assim que eu comecei a ser visto, as pessoas descobriram quem meu pai era, por causa do meu rosto.
Você recebeu algum conselho no início de sua carreira que mudou sua perspectiva quanto à escrita? Eu recebi todos os tipos de conselho e foram ótimos. Mas o meu problema foi que não consegui absorvê-los. Tem algo que a Alice diz em Alice no País das Maravilhas que é: “Eu geralmente me dou muitos bons conselho, mas eu raramente os sigo”. É assim que eu me sentia quando criança. Eu realmente aprendi a escrever ao me apaixonar por alguns escritores e ler tudo o que eles fizeram, quase tentando replicar a maneira como eles escreviam. Eventualmente eu acabei descobrindo que estava apenas escrevendo como eu mesmo. Você apenas lê muito e escreve todos os dias, então acaba desenvolvendo o ouvido para uma boa frase.