Com Donald Trump, nunca se sabe e nessas três primeiras e tumultuosas semanas do ano tanto tem mudado constantemente que fica difícil avaliar. Por causa da agitação em torno da Groenlândia, que tem alta probabilidade de não dar em nada de ruim, como uma hipotética invasão, uma questão muito mais fundamental está acontecendo: a proposta de criação de um Conselho de Paz para administrar as novas fases de desarticulação de conflito em Gaza e a participação do que seria equivalente a um governo tecnocrático, integrado por palestinos ou americanos de origem palestina com teor apolítico.
Os objetivos são nada menos do que tremendos: pacificar o território, desarmar o Hamas, promover uma retirada israelense das áreas ainda sob controle militar e, mais ambiciosamente ainda, reconstruir Gaza com uma visão inteiramente nova.
Parece até delirante, como tanto do que se relaciona com Trump, mas o projeto corre o maior risco já visto em muito tempo no Oriente Médio: o de dar certo. Pelo menos se tiver um envolvimento ativo do amplo espectro de países convidados a integrar o Conselho – e, portanto, ter voz ativa no projeto de encaminhamento de uma solução para um conflito que já desafiou todos os mais brilhantes e poderosos governantes.
Por que Israel reclamou? Porque entre os convidados estão o Catar e a Turquia, dois países que apoiam ativamente o Hamas. Podem os financiadores do terrorismo participar de um projeto para desativá-lo? Só Trump pensaria numa coisa dessas (sem falar da “proposta” para que quem quiser integrar o Conselho da Paz permanentemente, pague um bilhão de dólares para a reconstrução de Gaza). Mas e se estes países apoiadores do Hamas tiverem mudado, resolvendo participar da solução e não do problema?
NÓS NAS CABEÇAS
É um risco altíssimo e Israel tem bons motivos para espernear, embora uma fonte do governo americano tenha respondido a Netanyahu em termos categóricos, dizendo ao site Axios: “Gaza é o nosso show, não é o show deles”.
Trump também aproveitou o momento e convidou Israel a integrar o Conselho. Qual será sua reação? Profundo silêncio como o do governo Lula, igualmente convidado, num sinal de perplexidade ou falta de cabeça para avaliar um convite importante, feito por um presidente americano o qual o brasileiro execra?
Dar nós em cabeças alheias é uma prática consolidada de Trump. Por exemplo, além dos mencionados Catar e Turquia, ele já convidou para o Conselho países díspares como Albânia, Argentina, Austrália, Canadá, Casaquistão, Chipre, Egito, França, Hungria, Índia, Jordânia, Marrocos, Paraguai, Polônia, Reino Unido e Vietnã. Ontem, convidou a Rússia. Mais convites ainda estão chegando, deparando com níveis variados de relutância.
Quem ficar fora, não poderá mais reclamar.
OPORTUNIDADE ÚNICA
O Conselho será presidido, claro, pelo próprio Trump. Incluirá o secretário de Estado, Marco Rubio; o emissário especial do presidente para conversações de paz, além de amigo de jogar golfe todo dia, Steve Witkoff; o genro e negociador igualmente bem-sucedido na trégua em Gaza, Jared Kushner, além de dois bilionários judeus interessados em fazer sua parte, Yakir Gabay, israelense baseado em Chipre, e o americano Mark Rowan, dono do legendário banco de investimentos Apollo Global Management.
O papel de executivo será do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, execrado pela esquerda por ter apoiado a invasão americana do Iraque e pela direita pela umbilical relação profissional-financeira com os Emirados Árabes Unidos.
Talvez seja essa a sua chance de entrar na história com uma reputação restaurada. Pode ser uma oportunidade única na vida, pode ser uma roubada – mas como saber se não tentar?
O conselho tecnocrático palestino será presidido por Ali Shaath, engenheiro que já teve uma participação menor na Autoridade Palestina. Nesse caso, é um risco enorme, pois o coloca na mira dos fundamentalistas mais extremos. Merece todos os elogios pela coragem de colocar muito mais do que a reputação em jogo.
O fato é que não existe nenhuma outra iniciativa para avançar o arrefecimento do conflito de Gaza e, mais amplamente, o que envolve todos os palestinos e Israel.
DEMANDAS CONFLITANTES
Por mais extravagante que pareça, a proposta de Trump oferece uma mercadoria extremamente rara na região: um pequeno raio de esperança.
De que outra maneira a Faixa de Gaza pode ser reconstruída, o extremismo islamista desarticulado e Israel conduzido gradativamente a aceitar, no futuro, um estado palestino desmilitarizado que acomode a existência de dois países sem que palestinos persistam na fantasia constante de eliminar a nação judaica? E esta responda a foguetes, atentados ou ataques como o de 7 de outubro com uma sucessão de guerras?
É um trabalho de gerações, mas Trump não parece intimidado. Anote-se que seu plano de vinte pontos para Gaza foi aprovado por todo o Conselho de Segurança da ONU, o que lhe confere enorme legitimidade. A questão mais imediata são as demandas conflitantes: o Hamas diz que só entrega armas se Israel sair da parte que continua a ocupar em Gaza e Israel diz que só sai se o Hamas se desarmar.
É um conflito que reflete a enorme complexidade da disputa fundamental entre judeus e palestinos, que antecede a própria criação do estado judaico, em 1948.
Mas se não for para arriscar agora, com um plano algo mirabolante como o de Trump, quando?
Não vai faltar assunto em Davos, que começa amanhã e já foi chacoalhada pela notícia de que Trump quer assinar lá, na quinta-feira, a constituição do Conselho de Paz. Embora a Groenlândia e as sobretaxas punitivas aos europeus dominem o cenário nas montanhas nevadas da Suíça, seria bom pensar em dar uma chance à paz também no Oriente Médio.