O Estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat, foi palco de um dos capítulos mais dramáticos e tumultuados da história recente do futebol africano neste domingo, onde o Senegal sagrou-se bicampeão da Copa Africana de Nações ao vencer o anfitrião Marrocos por 1 a 0, na prorrogação. Sob forte chuva e diante de mais de 66 mil torcedores, a partida foi marcada pelo equilíbrio tático durante o tempo regulamentar, com o goleiro marroquino Bounou realizando defesas cruciais para manter o placar zerado diante da pressão senegalesa. No entanto, o espetáculo esportivo deu lugar ao caos nos acréscimos do segundo tempo, transformando a final em um roteiro de tensão extrema e polêmicas de arbitragem.
O momento crítico ocorreu já nos descontos, quando, após ter um gol de Ismaïla Sarr anulado por falta, a defesa do Senegal viu o árbitro, com auxílio do VAR, assinalar um pênalti controverso sobre Brahim Díaz, gerando revolta imediata. Em um protesto sem precedentes em uma decisão continental, o técnico senegalês Pape Thiaw ordenou que seus atletas abandonassem o gramado, paralisando a partida por cerca de 20 minutos. O retorno da equipe ao campo só foi possível após a intervenção do capitão Sadio Mané, que liderou os jogadores de volta para a conclusão do jogo. Na cobrança da penalidade que poderia ter dado o título ao Marrocos, o artilheiro do torneio, Brahim Díaz, tentou uma “cavadinha”, mas o goleiro Edouard Mendy defendeu com facilidade, levando a decisão para o tempo extra.

O castigo para os anfitriões e a redenção senegalesa vieram logo no início da prorrogação, aos 94 minutos, quando o meio-campista Pape Gueye acertou um chute potente de perna esquerda no ângulo, sem chances de defesa, decretando a vitória dos “Leões da Teranga”. O rescaldo da final foi marcado por declarações que misturaram o alívio da vitória e o reconhecimento dos incidentes lamentáveis. Walid Regragui, técnico do Marrocos, expressou a frustração local e a preocupação com a reputação do evento: “Parabéns ao Senegal, embora a imagem que demos ao mundo do futebol africano, com tudo o que aconteceu, seja triste”. Já o herói do título, Pape Gueye, exaltou a resiliência do grupo diante da adversidade: “Demos tudo de nós, não desistimos. Foi uma partida muito difícil… O Senegal é campeão da África, estamos felizes!”. Com o triunfo, o Senegal consolida sua hegemonia no continente, enquanto o Marrocos vê seu jejum de títulos continentais estender-se para meio século.
(Com AFP)