Um dos ícones da televisão brasileira nos anos 1990, Valéria Valenssa, 54 anos, foi, por muito tempo a personagem-símbolo da transmissão do Carnaval na TV Globo ao personificar a “Globeleza”, uma passista que sambava de tapa-sexo e muita purpurina pelo corpo nos intervalos da programação televisiva. Em tempos de empoderamento feminino e questionamentos sobre a objetificação do corpo negro, seria impensável uma vinheta como aquela na atualidade. Ela agora volta, porém, numa versão mais recatada para 2026. Ainda assim, Valéria não se envergonha do seu passado purpurinado – a vinheta era criada pelo seu ex-marido Hans Donner. Os catorze anos como Globeleza são apenas um dos assuntos que ela traz em seu livro, Beleza Singular – Os 25 Segredos de Valéria Valenssa (ed. Tinta Negra). De tanto responder sobre autoestima, cuidados com a aparência e procedimento estéticos, a dançarina colocou no papel o que entende do assunto. Convidada do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus e também na versão podcast no Spotify), Valéria revisita o passado e aponta como a fé evangélica mudou sua forma de encarar o mundo. Assista.
POR QUE ESCREVER. “Lancei primeiro o meu primeiro livro, que foi minha autobiografia, oito anos atrás, e percebi que o livro me aproximou mais do meu público, porque até então a personagem Globeleza ficava distante das pessoas. Pude viajar pelo Brasil, fazer palestras através da minha história, sabe? Tive uma conexão de identificação com as pessoas. Na minha época de Globeleza não tinha isso. Tem 22 anos que não estou no ar. Fiquei tão apaixonada com essa conexão que falei: ‘preciso escrever um novo livro’. E eu queria muito escrever dentro desse meu universo da beleza. Eu vivi a beleza”.
IMPERFEIÇÕES. “As pessoas sempre falam que se espelham em mim, que se inspiram e que que são ‘globelezas’, Quero despertar a identidade de cada um, porque somos únicos nessa história, com sua essência, com seu carisma, com sua personalidade. Na verdade, ninguém é perfeita… Escutei de muitas pessoas: ‘Nossa, como você é perfeita’. Isso de cirurgião plástico, médicos, pessoas ligadas à arte. Nunca fui perfeita, tenho consciência disso, mas as minhas imperfeições fizeram com que a beleza se tornasse perfeita”.
VIRANDO A GLOBELEZA. “Fui eternizada na figura da Globeleza. A mais marcante na minha vida foi a primeira vez que fiz a vinheta do carnaval. Eu tinha 18 anos, era uma menina e nessa época sonhava em trabalhar na televisão e ser chacrete do Chacrinha. Na época tinha o Sargentelli também. Então ser uma dessas bailarinas e trabalhar, fazer sucesso… Bem, mas não imaginei que seria muito além do que pensei. Aí veio o convite para ser destaque da computação gráfica, da mulher nua, sensual, da mulher brasileira”.
SEMPRE PURPURINADA. “Era tudo muita purpurina, né? Sempre um grande desafio a cada ano. A gente queria sempre se superar, até porque aguardavam aquele momento. Era a chamada de fato do carnaval. Sempre mais de 30 horas de maquiagem, tinha muitos detalhes. Tinha que ser perfeito. E aquela purpurina ficava por semanas, na casa inteira, o ano todo… Sai do ar na hora certa. Fiquei 15 anos, comecei com 18, a última vinheta que eu fiz com 36”.
TEMPO QUE FICOU. “Hoje, se me perguntasse: ‘Globeleza iria se encaixar nesse sistema?’. Não, a gente tem que viver cada tempo, o seu tempo, respeitar as pessoas, principalmente o sistema público. Hoje é outro tempo, outras cabeças, sem dúvida. Até os corpos mudaram muito, né? Na minha época, na década de 1990, era o famoso top less. Monique Evans, Luma de Oliveira… Era muito mais natural. (…) Essa cobrança sempre vai existir. Quando a gente fala em padrão de beleza, a personagem Globeleza trouxe para o meio do palco uma menina preta, com carisma, com cores, com samba, com muita coragem. E ela não se encaixava no padrão da época. Até porque as meninas que se destacavam eram grandes modelos de fora”.
CASAMENTO COM HANS DONNER. “Sempre tracei um objetivo na vida, queria ter filhos depois dos 30 anos. Ainda bem que casei muito cedo. No meu caso, 20 anos, né? Mas fiquei 30 anos como mãe, enfim, um casamento que deu certo, Hans foi uma pessoa muito importante. Constituímos uma família, uma história juntos; e aí depois vieram os filhos, fui ser mãe full time. Nunca tive babá. Hoje vejo quanto passa rápido”.
VIRGINIA COMO RAINHA DE BATERIA. “A gente sempre teve esse espaço. Na minha época, tinha as grandes top models que desfilavam, que eram madrinhas de bateria. Não é novidade hoje para nenhuma escola de samba. Não é porque hoje realmente ela (Virginia) está na mídia, né? Mas se for para pensar, a maioria… Sabrina Sato… Tudo bem que Viviane (Araújo) já está aí há muitos anos. Mas Luma de Oliveira, Viviane, Luiza Brunet…”
VIDA COMO EVANGÉLICA. “Não descobri agora (a fé). Sempre fui espiritualizada, desde quando tinha oito anos, morava na Pavuna, no pico do Morro. Olhava para o céu, me chamava atenção, as nuvens, o sol… Não fui apresentada a Deus nessa época, Mas já acreditava muito em Deus. Vivi isso tudo através da minha fé, porque a fé me tira da realidade. A fé está associada a nossos sonhos. Aquilo que você acredita é que te dá força, sabe? Consegui realizar os meus sonhos através dessa força interior que Deus me deu”.
Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.