A inteligência artificial chegou à medicina com um discurso sedutor: velocidade, precisão, eficiência. Mas, no tratamento da obesidade — uma doença crônica, multifatorial e com base biológica, porém ainda carregada de preconceito —, a pergunta que realmente importa não é se a IA “vai substituir o médico”. E sim se ela consegue melhorar o tratamento.
Os trabalhos pioneiros que publicamos nos últimos meses em revistas científicas internacionais, como a Obesity Surgery e a PLOS Digital Health, apontam para uma resposta mais madura e menos sensacionalista: a melhor IA na obesidade não é a que tenta decidir sozinha, e sim a que opera dentro de um modelo de inteligência colaborativa, uma combinação deliberada entre capacidade computacional e julgamento clínico humano.
Essa ideia, defendida de forma direta em editorial recente publicado na Obesity Surgery, parte de um princípio simples: a IA pode ser excelente para organizar dados, reconhecer padrões e padronizar tarefas, mas humanos continuam indispensáveis para oferecer contexto, ética, empatia, responsabilidade e tomada de decisão sob incerteza.
O problema é que “IA” virou uma palavra mágica. Colocam no mesmo saco algoritmos de risco, robótica, análise de vídeos cirúrgicos e grandes modelos de linguagem. E daí nasce uma ilusão perigosa: achar que um texto bem escrito equivale a raciocínio clínico confiável.
Ao testarmos esses modelos em um tema sensível e complexo como a definição de obesidade clínica, a partir do relatório da Lancet Commission, a diferença ficou clara. Sem referência adequada, as respostas eram genéricas, parecidas com conteúdos disponíveis na internet. Quando os modelos passaram a trabalhar ancorados em um documento científico robusto, as análises mudaram de nível: tornaram-se mais precisas, mais coerentes e clinicamente mais úteis, reconhecendo, por exemplo, os limites do IMC e a importância do impacto funcional da obesidade na saúde.
A lição é direta: modelo sem âncora gera obviedade; modelo bem contextualizado pode ajudar a sintetizar conhecimento, desde que haja supervisão humana. A mesma lógica vale para consensos médicos, inevitáveis quando a ciência ainda está em construção.
Em uma iniciativa recente que reuniu especialistas de vários países para discutir de forma estruturada o papel da IA na cirurgia metabólica e bariátrica, o tom foi deliberadamente pragmático.
Reconheceu-se o potencial da tecnologia em áreas como educação médica, treinamento cirúrgico, seleção de pacientes e previsão de desfechos, mas também se destacaram riscos claros: dependência excessiva da tecnologia, necessidade de diretrizes éticas e a obrigação de informar o paciente quando a IA participa das decisões. Em outras palavras: não é “liberar geral”. É governança.
Talvez o exemplo mais concreto de como a IA pode fortalecer — e não substituir — consensos venha da avaliação de diretrizes internacionais sobre o uso de medicamentos para obesidade no contexto da cirurgia bariátrica. As recomendações formuladas por especialistas foram confrontadas com análises independentes feitas por diferentes sistemas de IA.
Na maior parte dos pontos, houve concordância. Onde surgiram divergências, elas não “derrubaram” as diretrizes, mas ajudaram a identificar fragilidades da evidência ou entusiasmo além dos dados disponíveis, levando a ajustes pontuais na força de algumas recomendações. A IA não comandou o processo; funcionou como um teste adicional de coerência.
Há, porém, uma ressalva essencial: concordância entre IA e especialistas não significa neutralidade absoluta. Muitas vezes, indica apenas que ambos se baseiam no mesmo conjunto de evidências disponíveis. A utilidade real da IA está em “provocar” o raciocínio humano, explicitar incertezas e tornar decisões mais transparentes. A utilidade da IA está menos em dar respostas e mais em fazer boas perguntas.
O recado, para quem cuida da obesidade, é claro. A era da inteligência artificial não exige médicos mais tecnológicos. Exige médicos mais críticos. A inteligência colaborativa funciona quando a pergunta é bem feita, a fonte é confiável, os limites são explicitados e a responsabilidade continua humana. A promessa real não é automatizar o cuidado, mas qualificar decisões em um campo que, por décadas, foi tratado com simplificação excessiva e culpabilização do paciente.
A IA pode, sim, ser parte da solução. Mas só se aceitarmos a verdade menos confortável: ela não substitui maturidade clínica. Ela a exige.
Ricardo Cohen é head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ex-Presidente da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (ISFO) e Chair do Clinical Care Commitee da World Obesity Federation (WOF)