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Por que a saída de Haddad não abala o mercado

Num País acostumado a andar aos solavancos, o anúncio da saída de Fernando Haddad da Fazenda, esperada até fevereiro, provocou um efeito diverso: até agora, o mundo dos negócios não deu sinais de exasperação, e Bolsa, câmbio e nos juros futuros não tiveram seus rumos inalterados. O ministro já confirmou, em conversa com jornalistas, a intenção de deixar o cargo para se dedicar à campanha de Lula nas eleições majoritárias deste ano.

A explicação para isso, avalia o mercado, está no fato de que haverá um movimento de troca de nomes, não de política econômica. A provável ida de Dario Durigan, atual secretário executivo da Fazenda, para o comando da pasta reforça a leitura de continuidade da política atual e ajuda a explicar a reação contida dos investidores. “É difícil piorar a política fiscal e a economia do governo”, diz um banqueiro de investimento, sintetizando a percepção de que o risco central já está dado e não depende apenas de quem ocupa a cadeira da Fazenda.​

Do lado considerado “positivo” pelos profissionais da Faria Lima, alguns fundamentos básicos ajudam a segurar o humor: a inflação roda em patamar mais comportado do que nos piores momentos recentes, o desemprego permanece relativamente baixo e há projeções de crescimento modesto, porém positivo, do PIB para 2025 e 2026. Essa combinação reduz o temor de uma ruptura imediata, permitindo que a transição na Fazenda seja lida como um evento político-administrativo, e não como gatilho automático para uma crise de confiança. A sensação entre gestores é de que, diante desse cenário mínimo de estabilidade, o mercado já se acostumou à convivência com ruído político elevado sem precisar reprecificar a economia a cada movimento de peça na Esplanada.

No campo negativo, porém, a leitura predominante é de que a provável ascensão de Durigan sinaliza a continuidade da mesma linha econômica, com foco em arranjos para acomodar gastos e pouca disposição para um ajuste fiscal estrutural. A dívida bruta do governo geral já se aproxima de 79% do PIB, na casa de R$ 10 trilhões, depois de subir mais de 7 pontos percentuais no atual mandato, o que mantém o País entre os emergentes mais pressionados e deixa a política fiscal “à beira de explodir”, segundo gestores ouvidos pela coluna.

Na prática, a troca Haddad–Durigan é lida como confirmação de que o governo continuará a testar os limites do arcabouço fiscal, empurrando a discussão sobre trajetória da dívida para frente e restringindo o espaço de qualquer titular da Fazenda. “Qualquer ministro vai ser fraco no governo Lula, pois ele só ouve a Janja e o Celso Amorim”, critica um sócio de grande gestora na Faria Lima, sugerindo que o verdadeiro centro de gravidade da política econômica está no núcleo político do Planalto.

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Há também um componente histórico na frieza da reação: desde Pedro Malan, que atravessou os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, os titulares da Fazenda ou da Economia tendem a completar, com maior ou menor desgaste, o ciclo presidencial. Nos governos Lula 1 e 2, Antonio Palocci e depois Guido Mantega permaneceram por longos períodos; na era Dilma, Mantega ficou até o fim do primeiro mandato, dando lugar a Joaquim Levy e, posteriormente, a Nelson Barbosa até o impeachment; Michel Temer apoiou-se em Henrique Meirelles do início ao fim; e Jair Bolsonaro manteve Paulo Guedes como “superministro” ao longo de todo o seu mandato. Esse padrão reforça a percepção de que mudanças na Fazenda, quando ocorrem, costumam ser mais resultado de recalibragens de políticas específicas do que de uma guinada de regime econômico, o que ajuda a conter reações emocionais dos preços de ativos.

Nesse contexto, a hipótese de saída de Haddad é vista menos como rompimento e mais como um novo capítulo da mesma história de expansão de gastos, tensão com a âncora fiscal e acomodação de interesses no Congresso. A leitura predominante é de que o mercado já internalizou que a política econômica continuará subordinada ao núcleo político do Planalto, com pouco espaço para um ministro impor correções de rota relevantes. No fim das contas, a falta de solavancos no mercado com a saída do ministro da Fazenda não deixa de ser um dado positivo, afinal, já se acumulam motivos suficientes para impactos diários na Bolsa e no dólar com Donald Trump na Casa Branca, as tensões eleitorais e institucionais internas e o escândalo em torno do Banco Master.

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