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‘Retirar cotas seria retrocesso para democracia’, diz reitor da PUC-PR

Reconduzido ao cargo para um novo mandato desde 6 de janeiro, o reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Irmão Rogério Renato Mateucci, 53 anos, reafirma a continuidade do trabalho feito nos últimos quatro anos, envolvendo principalmente inovação tecnológica, impacto social e formação humanista. À frente de uma das universidades privadas mais bem avaliadas do país, Mateucci conversou com a coluna GENTE sobre a expectativa da nova gestão, os desafios atuais do ensino superior, a valorização da ciência e o papel da educação nas políticas de inclusão, como ações sociais e o sistema de cotas.

O que muda entre o primeiro mandato e este novo período à frente da universidade? A recondução representa mais uma confirmação de um caminho acertado do que uma mudança. Seguimos um planejamento estratégico consistente, aprovado pela comunidade acadêmica, e estamos dando continuidade aos grandes propósitos da universidade.

Qual decisão da última gestão mais lhe dá orgulho? A PUC do Paraná tem se destacado em rankings nacionais e possui uma estrutura própria entre as sete PUCs do país. Um marco recente foi a inauguração, em 2022, do Centro de Realidade Estendida, um espaço de 4 mil metros quadrados com tecnologias imersivas abertas a todos os cursos, reforçando o compromisso da universidade com inovação e formação alinhada ao mercado.

Em termos de pesquisa científica, que avanços a instituição vem desenvolvendo? Na última avaliação da Capes, nove programas de mestrado e doutorado da PUC Paraná subiram de conceito, reforçando a relevância da produção científica. Toda a pesquisa stricto sensu está integrada ao Hotmilk, ecossistema que conecta academia, inovação, empreendedorismo e startups, aproximando o conhecimento das demandas do mercado.

Vivemos um período recente de desvalorização da ciência no país. Para o senhor, qual é hoje o maior dilema do ensino superior? A ciência foi questionada quando estava restrita à universidade. Quando ela se volta para os grandes problemas da sociedade — sociais, ambientais, econômicos — se legitima. Por isso, nossos programas de pesquisa estão conectados à inovação. Um exemplo é a área de energias renováveis, que tem sido uma pauta central aqui, por sua importância para o futuro do planeta. A pesquisa é atual quando olha para desafios concretos da vida cotidiana.

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O senhor observa crise no financiamento dessas pesquisas? A pesquisa é cara e exige disposição para investir. Vivemos num país em que é fundamental ampliar a conexão com o setor produtivo. É isso que temos feito: aproximar empresas da universidade para que entendam o valor do que produzimos. Há uma crise, sem dúvida, mas também há caminhos que passam pela integração entre universidade e setor produtivo.

A universidade desenvolve ações sociais em comunidades? Sim. Um exemplo é o Vestibular Social Vila Torres, voltado a moradores da comunidade próxima. Os estudantes aprovados recebem bolsa integral, bolsa permanência e acompanhamento por tutores. Temos também o Programa Vizinhança, que oferece atendimentos nas clínicas da universidade: fisioterapia, odontologia, medicina, entre outros. Outro projeto importante é a Casa de Francisco e Clara, inspirada em uma proposta do Papa Francisco. É uma iniciativa única no país, voltada à economia solidária, que apoia pequenos empreendedores, especialmente mulheres.

Qual tem sido o impacto do sistema de cotas na PUC ao longo dos anos? Temos cerca de 5 mil alunos de graduação beneficiados por programas como ProUni e Fies. Esses estudantes também participam de iniciativas como o PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica), o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica. Observamos que eles valorizam essas oportunidades, especialmente pela possibilidade de seguir para o mestrado ou outras pós-graduações. Eles aproveitam intensamente a estrutura e o acompanhamento que a universidade oferece.

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As cotas vieram para ficar? Não só vieram como devem ficar. Hoje, não é possível pensar o desenvolvimento social do país sem políticas de inclusão como essas. Retirar as cotas seria um retrocesso para a democracia e para a possibilidade de darmos passos para o desenvolvimento do povo.

O que ainda pode melhorar nesse sistema? A ampliação da bolsa permanência. Muitos estudantes têm a mensalidade coberta, mas enfrentam dificuldades com transporte, alimentação e material didático. 

O que mais preocupa e o que mais surpreende na nova geração de estudantes? Surpreende a solidariedade. Vimos isso, por exemplo, na mobilização dos alunos diante da tragédia no Rio Grande do Sul, se deslocando para ajudar. O que preocupa é a velocidade das transformações. Às vezes, percebo um certo comodismo diante da necessidade de desenvolver novas competências para um mundo que muda rapidamente. 

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Como a formação religiosa dialoga com um mundo cada vez mais tecnológico? Como universidade católica, defendemos que a formação técnica deve caminhar junto com a formação humana. Aqui, dizemos simbolicamente que entregamos, junto com o diploma, um “diploma de gente boa”. Valorizamos empatia, ética e compromisso social, trabalhados por meio de projetos, ações formativas e iniciativas solidárias, com impacto real no desenvolvimento dos estudantes.

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