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A dança do tempo

“O objetivo de um escritor é impedir a civilização de se destruir”, disse, com pessimismo habitual, Albert Camus. Haja trabalho para os escritores. Neste momento de aceleração da velocidade da história e de abalo da ordem estabelecida das coisas, é bom dar uma desacelerada para tentar manter uma visão sem ideias preconcebidas. Os acontecimentos no Irã, por exemplo, devem levar em conta uma história de dois milênios e meio. Para dar uma perspectiva: no dia em que o xá Mohammad Reza Pahlavi caiu, em 16 de janeiro de 1979, a antropóloga americana Karen Pliskin lembra a reação consternada de amigos iranianos pertencentes a minorias religiosas, inclusive cristãos, judeus e zoroastrianos, a religião pré-islâmica da Pérsia. Achavam que, com um regime islâmico, tão celebrado na época, perderiam as proteções oferecidas pela monarquia. “Hoje, 2 600 anos de história se acabam”, ouviu de uma iraniana judia. Desde então, reduziram-se a cerca de 9 000 os judeus no Irã, apenas espectros de uma história com referências bíblicas, como a autorização aos judeus para deixar o império persa e reconstruir o templo de Jerusalém, conforme “o decreto de Ciro e Dario, e Artaxerxes, o rei da Pérsia”, segundo o Livro de Esdras.

Qualquer coisa que remonte a Artaxerxes deve ser considerada à luz da eterna dança das civilizações, com ciclos de apogeu e decadência. Muitos intelectuais defendem a teoria de que os Estados Unidos estão em inevitável fase de declínio e que Donald Trump representa essa derrocada. Leve-se em conta que a avaliação acontece no momento subsequente à mais sofisticada operação de forças especiais de todos os tempos, a remoção cirúrgica de Nicolás Maduro, feita por dezenas de comandos americanos.

“Qual a civilização que, dentro de 1 000 anos, terá sobrevivido: a persa ou a britânica?”

Os aiatolás iranianos invocavam a herança persa para se apresentarem como herdeiros de uma civilização antiga e orgulhosa — além, obviamente, de devidamente convertida para eles à verdadeira religião, a muçulmana. Winston Churchill, ao contrário, deixou patente o desprezo pelos efeitos do Islã, em palavras que hoje seriam impensáveis. “Como são lamentáveis as pragas que o maometanismo lança sobre seus adeptos. Os efeitos são aparentes em muitos países. Hábitos imprevidentes, sistemas agrícolas relapsos, métodos de comércio preguiçosos e insegurança da propriedade existem onde quer que os seguidores do Profeta dominem ou vivam”, escreveu o politicamente incorretíssimo herói britânico, o maior em um milênio de história da teimosa, chuvosa e orgulhosa ilha.

Qual a civilização que, dentro de 1 000 anos, terá sobrevivido: a persa ou a britânica, pilar fundamental da civilização ocidental? E onde estarão os americanos, os novatos na corrida civilizacional, que em julho próximo comemoram 250 anos de independência, um nada em termos históricos?

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Todo mundo sabe que, primeiro, os deuses atendem aos pedidos daqueles que querem enlouquecer. Estariam os deuses da história atendendo aos pedidos de Trump? Ou ainda vai continuar, por um bom tempo, sendo melhor ter uma Força Delta a seu comando do que todos os outros Exércitos sob o sol? Além de virar um inesperado exterminador de vilões, embaralhando tudo o que os conhecedores imaginavam saber. Inclusive os escritores enganosos que, em vez de salvar a civilização, torcem pelos malvados.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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