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“Um dia, meu filho resolveu se abrir: achou que morreria de tanto sangrar”

Fiz como muitos brasileiros: deixei minha casa, em Belém, para tentar uma vida melhor em Portugal. Fui mãe muito cedo, aos 17 anos, e tudo o que eu sempre quis foi dar estabilidade ao José Lucas (no porta-retratos ao lado), hoje com 10. Cruzei então o Atlântico sozinha, em 2018, atrás de trabalho. O que também me movia era a ideia de que teria ali mais segurança, e meu menino poderia crescer tranquilo. Mas tudo mudou em novembro passado, quando José foi alvo de xenofobia na escola, na vila onde morávamos, no norte do país. Um grupo de crianças que há tempos dizia coisas do tipo “você não sabe falar português, está tudo errado, é brasileiro” forçou a porta do banheiro prendendo sua mão esquerda. De nada adiantou implorar para que parassem. A ferida em dois dos dedos foi tão profunda que exigiu cirurgia. Meu filho se transformou desde então: de alegre, tornou-se retraído e agora, na volta às aulas em colégio novo, lutamos os dois para seguir em frente. Vou brigar por justiça até o fim.

O bullying que ele sofria, entre agressões verbais e físicas, o deixava cabisbaixo, triste. Vim a saber que era uma rotina de violência e fui questionar a professora. Ela não deu atenção. “Crianças mentem e foi um mal-entendido”, disse. E os abusos continuavam. Pouco antes do episódio da porta, meu filho chegou em casa com marcas no pescoço. Havia sido pressionado contra a parede, e voltei à professora que, de novo, nada fez. Não muito tempo depois, recebi a fatídica ligação avisando que ele tinha, veja só, se acidentado na escola. Ao chegar lá, José estava com a mão enfaixada e o moletom ensanguentado. Gritava de dor. O colégio minimizou outra vez, relatando que ele havia se machucado enquanto brincava no banheiro. Ele me contou mais tarde que, com os dedos sendo esmagados, suplicou por socorro. Ninguém veio. Ferido, conseguiu escapar por debaixo da porta e pedir ajuda. Um pesadelo.

Foi a caminho do hospital que descobri que meu filho estava sem partes de dois dedos, mas contive a agonia. Passaram-se três horas de cirurgia até colocarem um deles no lugar. Ficou sem as duas digitais. Um dia, José resolveu se abrir: achou que morreria de tanto sangrar. No hospital, uma enfermeira foi a primeira a falar sem meias-palavras — era caso de polícia. E chamou uma assistente social, que me orientou sobre os trâmites judiciais e recomendou trocá-lo de colégio. Me trataram com descaso na delegacia. Ao ouvir o relato, o agente concluiu: “Tudo para vocês, brasileiros, é xenofobia. Por mim, não há denúncia”. Descobri que nunca foi feita uma queixa-crime. O caso seguiu por uma via que não dava direito a corpo de delito e me impedia de recorrer ao Ministério Público. Desesperada, contei a história na internet e houve uma onda de solidariedade. Não esperava tanto. Uma advogada se voluntariou e montou uma equipe de mais de vinte especialistas. Quero que todos os envolvidos sejam responsabilizados.

Para ter paz, mudei com meu marido, padrasto de José, para a cidade da minha sogra, no sul de Portugal, e recomeçamos do zero. José vem sendo acompanhado por uma psicóloga. Na semana passada, no retorno às aulas, ficou aterrorizado. Não queria ir, mas conseguiu fazer amigos. Todo dia é um pequeno passo. O depoimento dele foi marcado para o fim de janeiro. Sei que será um dia terrível. Sempre que tem de revisitar o que aconteceu, fica agitado, nervoso, e não dorme. A escola também abriu uma investigação interna. A intolerância com brasileiros se faz sentir o tempo todo em Portugal. O cenário mudará apenas quando o governo do país implementar políticas públicas de inclusão, a começar pela educação das crianças. É papel da Embaixada do Brasil pressionar por mudanças. O medo de algo parecido se repetir é tanto que decidi, em um futuro próximo, ir embora. Talvez tente outro lugar na Europa, talvez volte ao Brasil. Onde estivermos, as cicatrizes, físicas e psicológicas, estarão conosco. Elas não se apagam.

Nívia Estevam em depoimento a Paula Freitas

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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