Atolada no trabalho, Marissa Irvine (Sarah Snook) respira aliviada quando a mãe de um coleguinha de seu filho sugere, numa mensagem de texto, que o garoto brinque em sua casa após a aula. Mais tarde, ao buscá-lo no endereço combinado, a mãe sofre um baque: o pequeno Milo (Duke McCloud) nunca esteve no local, e a mensagem recebida fora enviada por um desconhecido que pegou o garoto na escola e sumiu com ele. Disponível no Prime Video, a hipnótica minissérie All Her Fault estourou na plataforma nas últimas semanas e é o exemplar mais recente e poderoso de um filão que se debruça sobre um dos maiores medos dos pais de qualquer tempo e lugar: o terror de ter um filho desaparecido.

Segundo estatísticas recentes, cerca de 8 milhões de crianças desaparecem todos os anos ao redor do mundo, com os Estados Unidos figurando constantemente no topo do ranking de notificações. Angustiante e assustadora, essa realidade foi vertida em ficção e marcou presença no cinema em tramas como o suspense Bunny Lake Desapareceu (1965) e a fantasia sombria A Cidade das Crianças Perdidas (1995). No streaming, ficções científicas populares como Dark e Stranger Things, ambas da Netflix, também deram o pontapé inicial de suas histórias com o desaparecimento de crianças, mas logo se desviaram do tema. Agora, o problema enfim ganha protagonismo e retrato realista em séries como Expatriadas, do Prime Video, e Eric, da Netflix — que, assim como a nova produção do Prime Video, desatam o novelo do desaparecimento sem limitá-lo a um papel coadjuvante ou a um caso policial, dando atenção especial ao sofrimento psicológico que desestrutura famílias inteiras e expõe feridas escondidas por trás de porta-retratos sorridentes.
Protagonizada por Sarah Snook, All Her Fault — É Tudo Culpa Dela, em tradução literal — dá atenção especial à sobrecarga feminina e ao fardo da culpa infligido às mães após o desaparecimento da criança, como indica o título. Expoente da elite americana, o clã aparentemente unido de Milo vê o verniz de civilidade se deteriorar com a tragédia, que expõe uma série de manipulações, segredos e rancores que consomem o cerne familiar à medida que cresce a incerteza sobre o paradeiro do garoto.

Esse recorte também ganha força em Expatriadas, no qual o desaparecimento de Gus (Connor J. Gillman) em uma feira de Hong Kong cria um silêncio quase ensurdecedor dentro de casa. Sem perspectiva de retorno do garoto, os pais fingem normalidade e tentam seguir em frente, enquanto os pilares que sustentam as relações internas do lar estão à beira do colapso diante da culpa e da incerteza geradas pelo sumiço. No caso de Eric, a trama faz a trilha inversa: antes de sumir no caminho para a escola, o pequeno Edgar (Ivan Morris Howe) era aterrorizado diariamente pelas brigas dos pais. Com o mistério do paradeiro do filho, Vincent (Benedict Cumberbatch) mergulha em uma espiral de culpa e paranoia e precisa aprender a lidar com questões psicológicas profundas para seguir na busca pelo garoto e recuperar sua vida.
Com foco inevitável na confusão emocional e psicológica enfrentada diariamente por famílias que perdem suas crianças em um piscar de olhos, sem saber se voltarão a vê-las algum dia, tramas do gênero também são uma forma inteligente de debater temas sociais que extrapolam a narrativa. No caso da história do Prime, além do machismo e da sempre presente sobrecarga feminina, que é denunciada de maneira afiada na trama, o desaparecimento de Milo também expõe temas como a corrupção e o narcisismo dos endinheirados diante da vulnerabilidade dos mais pobres, e as tragédias geradas pelo cruel ciclo da pobreza. A desigualdade social também ganha destaque em Expatriadas, enquanto temas como racismo roubam a atenção em Eric — em que o sumiço do garoto na Nova York de 1980, com a criminalidade em ascensão, denuncia a diferença de empenho das autoridades entre a busca por uma criança branca de classe alta e os casos envolvendo jovens negros desaparecidos. O aterrorizante pesadelo familiar rende muito nas telas.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978