Terão as forças repressivas conseguido intimidar, com mortes em massa, o levante popular no Irã? As imagens que furam o bloqueio indicam um refluxo nos protestos, embora a situação seja de instabilidade tão alta que torne impossível cravar um veredito. Fora Donald Trump e comunidades de exilados no exterior, os iranianos e as iranianas, tão valentes em seus sarcásticos protestos, dos quais se tornou icônico o ato de acender um cigarro com um cartaz em chamas do aiatolá Ali Khamenei, estão sozinhos. Não receberam uma única manifestação de rua exigindo que sejam protegidos e salvos das balas que já mataram milhares.
O motivo é amplamente conhecido: celebridades e simpatizantes de esquerda postam ou vão às ruas contra tudo que remotamente pareça favorável aos Estados Unidos e Israel. Caso contrário, não apenas engolem, mas se orgulham de causas que vão de Nicolás Maduro ao aiatolá atualmente usado como isqueiro.
“Agem apaixonadamente quando seu ativismo prejudica o Ocidente, mas suas vozes parecem abandoná-los quando o tirano usa turbantes”, escreveu Jake Wallis Simpson no Telegraph. “Isso é particularmente verdadeiro em relação àqueles que construíram suas posições políticas em torno da ‘Palestina’. A qual, coincidentemente, eles têm em comum com o regime iraniano.”
Na Spectator, Clarissa Hard anotou: “As cidades ocidentais deveriam estar lotadas de feministas fervorosas celebrando a coragem de suas irmãs iranianas diante de uma opressão perversa. No entanto, seu silêncio é conspícuo”.
“Uma geração inteira de ativistas desenvolveu uma reação reflexa de antiocidentalismo pela qual apresenta como virtuoso praticamente qualquer inimigo da América, de Israel ou do Ocidente em geral”.
FILME DE MONTY PHYTON
A autora lembrou um acontecimento simplesmente surreal em Washington: mulheres da comunidade iraniana que faziam um protesto contra o regime de Khamenei e companhia tentaram argumentar com um grupo menor, de esquerdistas que celebravam o Hamas. Note-se que, pelos padrões americanos, as iranianas não se incluem na categoria “branca” – embora seu país esteja no centro do conceito de ariano – e as americanas pró-Hamas todas se enquadram nela.
A ironia é tão inacreditável que parece cena de um filme de Monty Phyton.
Irão os bravos iranianos, mulheres e homens, ser novamente massacrados até perder a coragem de sair às ruas para protestar? Sairá o regime teocrático, mais uma vez, vitorioso depois de matar cerca de cinco mil pessoas? O cálculo sobre o número de vítimas é da inteligência israelense, notando-se que, no momento, o governo do país tem apelado para Trump protelar a prometida ajuda aos manifestantes, enquanto organiza a resposta a um prometido ataque contra Israel caso o presidente americano parta para uma resposta ofensiva.
Os Estados Unidos têm forças amplamente qualificadas em bases no Oriente Médio, mas precisam da permissão das autoridades locais de países como o Catar – ainda por cima, simpatizante do Irã – no caso de ataque além-fronteiras. No momento, não há um porta-aviões americano na região. Algumas forças americanas estão sendo retiradas da base de Al Udeid no Catar, num movimento preventivo para amenizar perdas. Havia repetidas informações de um ataque iminente, percepção agravada pelo fechamento total da embaixada britânica em Teerã.
SOLIDARIEDADE SELETIVA
Uma intervenção americana poderia virar o jogo num momento em que o regime iraniano mantém o controle do país. “Para que os protestos de civis desarmados mudassem o equilíbrio de forças, seria preciso ter multidões nas ruas por muito mais tempo”, disse um especialista americano de origem iraniana, Vali Nasr. “E teria que haver algum racha no estado; alguns segmentos do estado, e especialmente das forças de segurança, teriam que desertar”.
Ver um jovem como Erfan Soltani condenado à morte na forca deveria colocar multidões nas ruas mundo afora. Ele tem 26 anos, gosta de musculação, usa barba e cabelos bem aparados e pequenos brincos, como está na moda. Trabalha no ramo de roupas, traja-se de maneira moderna, como a que pode ser vista em qualquer país ocidental. Muitos jovens deveriam se identificar com ele no Ocidente e se revoltar com a ideia de sua execução sumária. Da mesma forma que todos deveriam ser solidários com a valentia das iranianas que, se o regime se mantiver, voltarão a ser obrigadas a cobrir a cabeça e receber multas se fizerem algo tão criminoso como dirigir automóveis.
Lembremos que desde o início do regime teocrático, em 1979, já foram executados entre quatro e seis mil homens homossexuais. As lésbicas são punidas com chibatadas.
Há protestos em Londres, Paris ou Nova York? A única voz que se ergueu foi a de Trump, arrancando o compromisso de suspensão das execuções.
Todos sabemos que as lentes ideológicas criam solidariedade seletiva. Isso se reflete na ignóbil nota em que o Itamaraty “lamenta as mortes e transmite condolências às famílias” iranianas, como se estivesse em jogo um drama do destino. Melhor teria sido ficar em silêncio do que revelar que, na verdade, o valoroso ministério pretendeu fazer uma advertência a Trump ao “sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país”. Trump deve ter tremido na base com esse “sublinhar”.