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Mapa inédito revela áreas de São Paulo mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos e crise hídrica

São Paulo começa a ganhar contornos mais precisos de sua vulnerabilidade climática.

Uma nova plataforma digital gratuita revela que cerca de 2% do território da capital, o equivalente a 3.075 hectares, está localizado em áreas suscetíveis a inundações, alagamentos e enxurradas.

Para dimensionar o impacto, trata-se de uma área comparável a 20 parques do Ibirapuera.

Os dados fazem parte da Natureza ON, ferramenta lançada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas, com infraestrutura tecnológica do Google Cloud.

A plataforma cruza mapas de relevo, hidrografia, uso do solo e estatísticas oficiais para identificar riscos associados a eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes em função das mudanças do clima.

Mais do que um diagnóstico, o sistema aponta alternativas de adaptação urbana baseadas na própria natureza, um contraponto ao modelo histórico de enfrentamento dos problemas ambientais nas grandes cidades brasileiras, centrado quase exclusivamente em obras de engenharia pesada.

Enchentes: diagnóstico conhecido, soluções em disputa

A recorrência de temporais intensos em São Paulo não é novidade.

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O diferencial da plataforma está em detalhar onde os riscos são maiores, permitindo consultas por bacia hidrográfica, município ou setor censitário, a menor unidade territorial usada pelo IBGE.

A navegação parte da localização do usuário, o que amplia o potencial de uso tanto por gestores públicos quanto por organizações da sociedade civil.

Segundo Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, a leitura proposta pela ferramenta dialoga com uma mudança necessária na forma de planejar a cidade.

“As obras de engenharia convencional ainda são vistas como resposta quase exclusiva para os problemas urbanos, mas a adaptação às mudanças climáticas exige um novo olhar para a natureza”, afirma.

Entre as soluções sugeridas para reduzir os impactos das chuvas extremas estão lagoas pluviais e bacias de retenção, estruturas capazes de armazenar e liberar lentamente a água da chuva.

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Diferentemente dos tradicionais piscinões, essas alternativas podem contribuir também para a melhoria da qualidade da água e para a integração paisagística dos espaços urbanos.

Risco de deslizamentos avança sobre áreas ocupadas

A plataforma também evidencia um problema estrutural que tende a se agravar com o aumento da intensidade das chuvas: os deslizamentos de terra.

Em São Paulo, 199 hectares estão classificados como áreas vulneráveis, o equivalente a 277 campos de futebol. Desse total, quase 39% apresentam risco muito alto, 35% risco alto e 26% risco médio.

Nesses territórios, a principal solução indicada é a restauração de encostas. A combinação de vegetação nativa com técnicas geotécnicas pode ajudar a estabilizar o solo, reduzir deslizamentos e regular o escoamento da água da chuva.

Trata-se de uma abordagem que reconhece os limites da urbanização em áreas frágeis e a necessidade de reequilibrar a relação entre ocupação humana e características naturais do terreno.

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Segurança hídrica sob pressão

O diagnóstico climático da Natureza ON inclui ainda o risco relacionado ao abastecimento de água. Em quase 71% do território paulistano, o risco é considerado médio. Cerca de 6% da cidade apresenta risco alto, enquanto 23% têm risco baixo, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA).

A principal resposta apontada passa pela restauração do entorno dos mananciais que abastecem a capital. A plataforma também sugere a criação de corredores ecológicos, parques lineares ao longo de rios e lagos, além de parques e praças multifuncionais, capazes de melhorar a infiltração da água no solo e a qualidade dos recursos hídricos.

Uma cidade cada vez mais impermeável

Os dados de cobertura do solo reforçam o desafio estrutural de São Paulo. Mais de 65% da área do município é urbanizada, enquanto apenas 29% mantém cobertura florestal, concentrada sobretudo no extremo sul.

Rios, lagos e áreas alagadas somam pouco mais de 4%, e áreas pantanosas representam menos de 1%.

Nesse contexto, a plataforma indica um conjunto de soluções baseadas na natureza para mitigar os efeitos do solo impermeável e da alta densidade construtiva: arborização urbana, jardins de chuva, telhados verdes, biovaletas, alagados construídos, além de parques de bolso e praças multifuncionais.

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“A combinação dessas soluções pode reduzir significativamente os riscos climáticos e, ao mesmo tempo, melhorar os espaços públicos, promovendo mais bem-estar e qualidade de vida”, afirma Juliana.

Planejamento urbano em um novo clima

Ao sistematizar dados dispersos e traduzi-los em mapas acessíveis, a Natureza ON expõe um dilema central das grandes metrópoles brasileiras: o modelo de crescimento urbano do século 20 já não responde aos desafios climáticos do século 21.

Com a intensificação de chuvas extremas, períodos prolongados de estiagem e eventos cada vez mais imprevisíveis, ferramentas desse tipo tendem a ganhar relevância no debate público.

Mais do que tecnologia, elas colocam em pauta uma escolha política e urbanística: continuar reagindo às emergências ou planejar a cidade a partir dos limites e das soluções oferecidas pela própria natureza.

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