Não é normal que um presidente que maltrate servidores, com ofensas ou insinuações públicas sobre delitos éticos sequer demonstrados nem provados.
Mais incomum ainda é se no alvo presidencial está o funcionário que chefia a autoridade monetária, o Banco Central.
A ofensiva de Donald Trump para derrubar Jerome Powell do comando da Reserva Federal (FED, na sigla em inglês) tem a mesma origem política da cruzada de Lula para depor Roberto Campos Neto, na época presidente do Banco Central.
A Casa Branca mandou abrir uma investigação criminal por suposta exorbitância nos custos da reforma da sede do FED. O mandato de Powell, nomeado por Trump no primeiro governo, em 2018, só termina em maio.
Com nuances de estilo, Trump e Lula se movem na política pela escolha de adversários, que costumam definir como inimigos. E, também, pelo teste constante dos limites do próprio poder.
Aparentemente, ambos entendem que o mandato legitimado pelo voto subordina toda a administração pública. O caso do Banco Central é exemplar: assim como Lula, Trump acha a política monetária precisa estar submissa às prioridades do presidente eleito. É uma discussão tão antiga quanto a noção de independência ou de autonomia dos bancos centrais como fundamento de política econômica.
Os problemas começam quando políticos personalistas suspeitam da existência de alguém na estrutura de governança do país com mais poder do que eles.
Alguns perdem o rumo, a bússola e até a educação. Jair Bolsonaro, por exemplo, passou a xingar juízes do Supremo Tribunal Federal que consideraram inconstitucionais alguns dos seus decretos e portarias sobre saúde pública durante a pandemia.
No Clube Econômico de Detroit, nesta terça-feira (13/1), Trump discursou sobre suas divergências com a política monetária alternando menções ao presidente do FED como “idiota” e “imbecil”.
Em público, Lula sempre se preocupou em parecer mais polido. Se referia ao presidente do BC, Roberto Campos Neto, como “esse rapaz” ou “esse cidadão”, fazendo ressalvas do tipo: “Eu não sei a quem ele está servindo, não sei, sinceramente eu não sei. Aos interesses do Brasil, não é…”
Durante dois anos (2023-2024), Lula se empenhou na demonização do presidente do Banco Central: “Ele é um adversário político, ideológico e do modelo de governança que fazemos”, argumentava.
A sucessão no BC se deu naturalmente, um ano atrás, e a política monetária segue como antes, orientada para reduzir o ritmo de aumento do déficit nas contas públicas do governo Lula — o resultado é uma das mais altas taxas de juros do planeta.
Lula testou um limite de poder. Perdeu. Trump acha que pode chegar lá por outros meios, o processo criminal contra Powell. Deve perder, também, porque governar desse jeito custa caro, sobretudo quando se trata de disputa de poder e influência sobre a política monetária de um país.