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Chanceler alemão prevê que regime iraniano ‘vive últimos dias’; Trump discute ação em Teerã

Após duas semanas de intensos protestos no Irã, provocados inicialmente por uma crise inflacionária e ampliados para incluir um caldo de insatisfações, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou nesta terça-feira, 13, acreditar que o regime dos aiatolás, no poder desde a Revolução Islâmica de 1979, está em seus “últimos dias”. Embora outros movimentos tenham desafiado o governo clerical nos últimos anos, a situação é tida como crítica devido à maior fragilidade de Teerã após um ano de pesados confrontos com Israel e pelas recentes ameaças de intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em visita diplomática à Índia, Merz afirmou acreditar que o governo iraniano está em seus “últimos dias e semanas”, acrescentando que o regime carece de “legitimidade perante a população por meio de eleições”.

“Se um regime só consegue se manter no poder pela força, então está efetivamente em seu fim”, disse o chanceler alemão.

Merz está entre os muitos líderes mundiais que condenaram o governo iraniano pela força letal com que reprimem os protestos. Uma autoridade do Irã reconheceu em entrevista à agência de notícias Reuters nesta terça-feira que cerca de 2.000 pessoas, entre manifestantes e forças de segurança, perderam a vida desde que as mobilizações começaram, no final de dezembro (o oficial atribuiu a responsabilidade das mortes a supostos “terroristas”). Enquanto o número não foi confirmado, a a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, calculou em 648 o número de manifestantes mortos.

“Este ciclo de violência horrível não pode continuar. O povo iraniano e suas demandas por justiça, igualdade e equidade devem ser ouvidas”, declarou nesta terça o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk. “O assassinato de manifestantes pacíficos deve parar, e rotular manifestantes como ‘terroristas’ para justificar a violência contra eles é inaceitável”, acrescentou.

Além disso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou nesta terça que o bloco vai propor “rapidamente” novas sanções contra os responsáveis ​​pela repressão das manifestações, incluindo membros específicos da Guarda Revolucionária Iraniana. “O crescente número de vítimas no Irã é assustador. Condeno inequivocamente o uso excessivo da força e a contínua restrição da liberdade”, escreveu ela na rede X (ex-Twitter).

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A Iran Human Rights também afirmou que os presos durante os atos ultrapassam 10 mil, enquanto o regime lançou alertas públicos de que a participação em manifestações poderia acarretar pena de morte. Em paralelo, o governo cortou o acesso à internet desde a última sexta-feira, ultrapassando já a marca de 108 horas, segundo a agência de monitoramento NetBlocks. A organização de direitos humanos Witness estima que mais de 90 milhões de pessoas estão sem acesso à internet, o que também prejudicou a capacidade da mídia de noticiar acontecimentos no Irã.

EUA: medidas econômicas e militares em pauta

Em resposta, o presidente Trump anunciou na segunda-feira que qualquer país que fizer negócios com o Irã será alvo de tarifas de 25% sobre as transações comerciais com os Estados Unidos — uma medida que deve afetar grandes economias, como a China e a Índia, bem como o Brasil. A retaliação se soma a ameaças seguidas de uma intervenção militar americana em Teerã em prol dos manifestantes iranianos, algo que tomou contornos mais dramáticos desde a invasão à Venezuela em 3 de janeiro para capturar e derrubar o ditador Nicolás Maduro.

Também na segunda-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse a jornalistas que ataques aéreos estavam entre as “muitas, muitas opções” que Trump estava considerando em relação ao Irã, mas que “a diplomacia é sempre a primeira opção para o presidente”. A equipe de segurança nacional do presidente americano deve se reunir ainda hoje para discutir opções de ação.

Os últimos bombardeios diretos dos Estados Unidos contra o Irã ocorreram em junho do ano passado, em meio a uma guerra aérea entre a nação persa e o vizinho, Israel, que apontava o programa nuclear iraniano como uma ameaça existencial crescente. Na época, pouco antes dos ataques aéreos, a embaixada americana em Teerã enviou um alerta para seus cidadãos — por isso soou sério o aviso publicado pelo órgão diplomático virtual nesta terça, recomendando que americanos deixem o Irã “agora” ou tenham um plano de fuga que não “dependa” da ajuda do governo.

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“Os protestos em todo o Irã estão se intensificando e podem se tornar violentos, resultando em prisões e feridos. Medidas de segurança reforçadas, fechamento de estradas, interrupções no transporte público e bloqueios da internet estão em andamento. O governo iraniano restringiu o acesso a redes móveis, fixas e à internet nacional. As companhias aéreas continuam limitando ou cancelando voos de e para o Irã, com várias suspendendo o serviço até sexta-feira, 16 de janeiro”, escreveu a embaixada.

A nota recomenda ainda que os cidadãos dos Estados Unidos evitem manifestações, “mantenham um perfil discreto” e, se for seguro fazê-lo, considerem deixar o Irã “por terra” rumo à Armênia ou à Turquia. Caso seja impossível sair do país, a embaixada orientou que americanos encontrem um “local seguro” em suas residências ou outro prédio, além de estocarem itens essenciais, incluindo alimentos, água e remédios.

Alerta de Teerã

Em entrevista à emissora árabe Al Jazeera na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, fez um alerta aos Estados Unidos, afirmando que, enquanto abria negociações, seu país estava “pronto para a guerra”.

“Se Washington quiser testar a opção militar que já testou antes, estamos prontos para isso”, disse o chanceler iraniano, acrescentando que espera que o governo Trump escolha “a opção sábia” do diálogo.

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Araghchi sugeriu que o Irã está mais preparado do que em junho passado, quando as Forças Armadas americanas lançaram ataques contra três importantes instalações nucleares do país (que, segundo imagens de satélite subsequentes, causaram danos mais limitados do que Trump alegou). Após os Estados Unidos bombardearem os locais ligados a enriquecimento de urânio, Teerã realizou um ataque telegrafado – considerado simbólico – contra uma base militar americana no Catar, que não resultou em mortes ou feridos.

Em sua entrevista à Al Jazeera, Araghchi também afirmou que “elementos terroristas” se infiltraram nas multidões de manifestantes e atacaram as forças de segurança e os manifestantes no Irã, além de acusar tanto Washington como Tel Aviv de “fomentar” revoltas com objetivo de desestabilizar o governo iraniano.

Entenda os protestos no Irã

A onda de manifestações começou na capital, Teerã, em 28 de dezembro, desencadeada pelo derretimento do rial, a moeda iraniana. As demonstrações logo se espalharam por todo o país e passaram a traduzir todo um caldo de insatisfações, em especial as restrições sociais e políticas impostas pelo governo.

O rial, já frágil, deu uma guinada para baixo depois que o governo anunciou o fim da taxa de câmbio subsidiada para importadores. A medida fez o preço dos alimentos disparar.

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Somado a isso, em setembro, as vastas sanções da ONU contra o Irã voltaram a vigorar pela primeira vez em uma década, após terem sido acionadas pelo Reino Unido, França e Alemanha em resposta ao que denunciaram como falta de cooperação de Teerã em relação à fiscalização de seu programa nuclear. O regime diz que os fins do programa são civis, enquanto os níveis de enriquecimento de urânio registrados lá levaram diversos países a denunciarem a intenção de construir uma bomba atômica.

Na época, o Irã já enfrentava enorme pressão econômica causada pelo embargo americano, que isolou o país do sistema financeiro global. As sanções internacionais reativadas na ONU desempenharam papel fundamental na piora do poder de compra para iranianos, que vivem em um misto de inflação alta, preços exorbitantes e a desvalorização do rial.

A crise econômica na nação persa também se agravou devido aos ataques de Israel e dos Estados Unidos em junho passado, numa guerra aérea de 12 dias que danificou importantes fábricas dos setores energético e militar iranianos.

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