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O home office encolheu: por que cada vez mais empresas aumentam a carga de trabalho presencial

Impulsionado pela pandemia de covid-19, o trabalho remoto chegou a ser visto como uma transformação irre­ver­sí­vel na cultura corporativa. O acesso à internet rápida, a busca por maior qualidade de vida e, sobretudo, o fato de as empresas gerarem resultados, mesmo com os funcionários em casa, levariam ao fim da era do trabalho presencial. Cinco anos depois, porém, são muitas as evidências de que essa foi uma conclusão apressada. Na cidade de São Paulo, os edifícios comerciais encerraram 2025 com 10,3 milhões de metros quadrados ocupados — é o maior nível da história. Com o retorno aos escritórios, muitas companhias já planejam inclusive a expansão de suas instalações. “A maioria das empresas que nos procuram busca mais espaço”, diz Rafael Calvo, diretor de locação na divisão de escritórios da consultoria imobiliária JLL.

O movimento ganhou escala no Brasil e no mundo em 2025. No exterior, gigantes como o banco de investimentos JPMorgan, a fabricante de computadores Dell e o app de transporte Uber convocaram os funcionários de volta ao presencial. No Brasil, a Amazon reforçou a presença nos escritórios, uma diretriz agora global. A Petrobras fez o mesmo na área corporativa e o Itaú demitiu mais de 1 000 funcionários que atuavam em casa por baixa produtividade. O Bradesco também vai exigir a presença diária de 1 000 funcionários das áreas de investimentos e tesouraria neste ano.

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O home office não vai acabar, mas fica cada vez mais evidente que esse modo de trabalho encolheu. Um estudo da faculdade Insper em parceria com a consultoria Robert Half mostra que mais da metade da jornada semanal de labuta dos brasileiros voltou a ser cumprida dentro das empresas. “Isso indica que o modelo híbrido permanece viável”, diz Tatiana Iwai, pesquisadora do Insper e uma das autoras do estudo. Mais que eliminar totalmente a atividade remota — algo que levaria mais da metade dos entrevistados pela pesquisa a pensar em mudar de emprego —, o desafio é encontrar um novo ponto de equilíbrio. Mesmo empresas defensoras ferrenhas da digitalização reconsideraram sua política de pessoal. É o caso do Nubank. Hoje, seu regime é preferencialmente remoto. A partir de julho de 2026, porém, adotará dois dias presenciais por semana para 70% da equipe. Em janeiro de 2027, a exigência subirá para três dias. “O trabalho remoto otimiza a conveniência individual, mas muitas vezes à custa da produtividade coletiva”, disse o fundador da instituição, David Vélez, em carta aos funcionários. Segundo ele, o crescimento do Nubank depende de fatores que se beneficiam da convivência física, tais como a “excelência na execução, inovação ousada e uma cultura de profunda colaboração”.

Pesquisas acadêmicas endossam tal percepção. O americano National Bureau of Economic Research, um dos mais respeitados centros de pesquisa econômica do mundo, concluiu que os indivíduos em home office foram 18% menos produtivos que os colegas que deram expediente no escritório. Eles também aprenderam novas habilidades mais devagar. Já a Universidade de Chicago, após avaliar mais de 48 000 pessoas, constatou queda na qualidade das soluções propostas por quem atuava apenas remotamente. “O presencial acelera o aprendizado das equipes”, diz Ricardo Basaglia, presidente da consultoria de recursos humanos Michael Page.

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INTERAÇÃO - Vélez, do Nubank: o contato físico acelera a execução de projetos
INTERAÇÃO - Vélez, do Nubank: o contato físico acelera a execução de projetosTuane Fernandes/Bloomberg/Getty Images

Além disso, a presença física é um antídoto contra a morosidade, um problema que pode enterrar projetos estratégicos. Joni Silva, gerente de planejamento do grupo chileno Arauco, do setor de celulose, acompanha a construção de uma fábrica no município de Inocência (MS), um projeto de 25 bilhões de reais que entrará em operação no fim de 2027. “As decisões são mais rápidas pela proximidade e por todos os elementos que o on-line não proporciona”, diz. O faturamento do setor de viagens corporativas em 2025 — que alcançou o recorde de 14,3 bilhões de reais, segundo dados da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas, a Abracorp — atesta a importância dos contatos pessoais. Viaja-se cada vez mais para fechar negócios, realizar atendimentos pós-venda ou participar de feiras e eventos. “O ser humano não nasceu para ser digital”, diz Paulo Ventura, presidente da União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios. O trabalho remoto também tende a enfraquecer a identificação dos empregados com as empresas. “As razões para o retorno ao presencial são claras: recuperar a produtividade e reconstruir a cultura corporativa”, diz Fernando De Vincenzo, diretor da consultoria Cornerstone Career Services. “Para isso, as empresas recorrem a modelos que entregaram resultados mensuráveis no passado.” O bom e velho olho no olho ainda prova o seu valor para os negócios.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977

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