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Os acumuladores

Início de ano. É quando a gente faz uma limpeza no armário. Céus! Limpeza no armário, que sofrimento. Aquela blusa linda que não me serve mais. A camisa de grife que usei só duas vezes. A calça que não fecha mais na barriga. Uma pessoa racional, capaz de olhar a vida de maneira quase científica, separa boa parte do que tem em malas, bota à venda ou doa, e segue adiante. Eu não. Sou incapaz. Sofro com a camisa que estoura os botões na barriga, mas não abro mão. Tento fazer promessas que nunca irei cumprir. “Vou emagrecer, e a camisa vai servir.” Vai? Quantas vezes você realmente emagreceu, eu me pergunto. Bem… essa é uma resposta difícil. Mesmo porque não fui ao médico, nem procurei nutricionista. Só sonho em emagrecer. Como se um raio pudesse cair em cima de mim e me tornar, simplesmente, magro. Atlético, com um corpo de 20 anos, embora já tenha passado dos 70. Barrigudos não têm vez nesse mundo tão preso a padrões estéticos. Bem… restam a simpatia, o sorriso… mas isso não faz o botão fechar na barriga. Sofro, sofro. Olho para o armário e penso: “A semana que vem vou fazer uma limpeza”. Não esta semana. Na próxima. Ou na próxima, quem sabe a outra próxima. Mas um dia será inevitável. Só que não hoje… E o mesmo acontece com os livros. Eu tenho pilhas e pilhas de livros que não li. Mas o que eu faço? Entro na internet e compro mais dois ou três que, prometo, esses sim vou ler. O mesmo acontece com xícaras. Tenho loucura por xícaras, compro, ganho, acumulo. Só não tenho onde por, empilho no armário. Assim como uma coleção de gravatas gigantesca que, francamente, não uso há anos.

“Talvez a compulsão seja resolvida com terapia. Só talvez. Guardar coisas para mim é um ato de felicidade”

Um amigo meu adora recordações de viagens. Outro dia, na estante, encontrou um leãozinho que comprou na China e sentiu-se emocionado. Não só. Comprou um Lego em forma de árvore da felicidade que só tem lá. Quando o vê, lembra-se da viagem. Fora isso, tem um armário cheio de equipamentos de ciclismo. Não anda de bicicleta há anos. Mas está tudo lá guardado, porque… “um dia eu posso usar!” Mas não é só ele. Um amigo coleciona vinhos. Só que nunca bebe, ou porque são caros, ou até mesmo porque sente que não é o dia de abrir aquela garrafa tão especial. Tão especial que não abre nunca! Guarda as garrafas, deitadinhas, e já chegam a centenas. Com o risco de descobrir que virou tudo vinagre.

Outro amigo tem uma coleção de máscaras africanas. Mudou-se de apartamento, e as máscaras não têm mais onde ficar. Foram para o fundo do armário. Rapidamente, trocou de hobby: coleciona ímãs de geladeira. Tem tantos que falta geladeira para colocar.

Talvez a compulsão para acumular seja resolvida em terapia. Só talvez. Acumular coisas para mim é um ato de felicidade. Já sei que jamais lerei todos os livros que tenho. Mas sinto um conforto tão grande ao me ver cercado por eles que não há explicação. E o segredo de viver bem é esse, não é? Deixar de procurar explicação para toda loucura que a gente faz.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977

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