Em 2017, o cineasta Josh Safdie estava em uma festa quando alguém lhe prometeu apresentá-lo a uma futura superestrela. O jovem em questão era Timothée Chalamet, à época aos 22 anos — e prestes a estourar com o drama Me Chame pelo Seu Nome. “Ele estava lá no canto, mas parecia distante. Era óbvio que gostaria de pular para fora da própria pele. Aquele era um homem com ideias gigantescas para si. Ele era o Timmy supremo”, relembrou o diretor em São Paulo, no começo de dezembro, durante um evento promocional de Marty Supreme, longa no qual trabalharam desde então e que lançam no Brasil em 22 de janeiro, após sessões antecipadas que acabam de chegar aos cinemas. Situado nos anos 1950, o épico de duas horas e meia de duração se debruça justamente sobre aquela pulsão que Chalamet já demonstrava: a ambição. Motivado pelo projeto, o ator — hoje aos 30 — é agora figura ímpar em Hollywood: um showman inteiramente devotado à busca da grandeza.

Na trama, é essa a mentalidade que move Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa determinado a juntar o dinheiro necessário para viajar ao Japão e conquistar o título mundial, ainda que o esporte não lhe prometa grande retorno financeiro. Vagamente baseado no atleta real Marty Reisman e influenciado também pelas biografias de outros judeus americanos no pós-guerra, o personagem recorre a diferentes medidas drásticas, da bajulação ao crime. O longa é o mais caro já feito pela A24, produtora prestigiosa do cinema independente dos EUA: o orçamento de 70 milhões de dólares é uma raridade para histórias originais dentro da indústria de hoje e potencializa a ascensão de Chalamet. Mais que um ator egocêntrico com sede de atenção, ele transforma sua fama em ferramenta de um cinema fora da curva, na contramão do monopólio das franquias no circuito exibidor.

Por isso mesmo, Marty Supreme foi parar no evento CCXP em dezembro, com cacife que fazia lembrar o de um novo arrasa-quarteirão da Marvel. Chalamet também popularizou uma jaqueta estilizada com o logo do filme nas redes sociais, enviada para diversas celebridades, e foi o primeiro homem a subir ao topo da gigantesca esfera de Las Vegas, cujos 54 000 metros quadrados de LEDs emitiram a imagem de uma bola de tênis de mesa laranja junto ao título do longa. Até sua vida pessoal foi voltada para a promoção do filme: sua namorada, a empresária e figura da televisão Kylie Jenner, converte todos os eventos ligados ao projeto em manchetes nos tabloides. “Ele é um gênio”, disse Safdie em entrevista a VEJA. “A A24 é genial por apoiá-lo.” Antes mesmo de chegar ao Brasil e a outros mercados, o longa já tem a terceira melhor bilheteria da história da produtora e Chalamet é o mais forte rival de Wagner Moura na corrida ao Oscar 2026.
Tamanho sucesso comprova que o jovem é um dos poucos de sua geração capazes de atrair o público como faziam as antigas estrelas. Parte do porquê disso está em sua trajetória eclética: após virar muso do italiano Luca Guadagnino com Me Chame pelo Seu Nome e conquistar sua primeira indicação ao Oscar, o ator também brilhou em Lady Bird (2017) e Adoráveis Mulheres (2019). Em 2021, tornou-se protagonista da grandiosa saga de ficção científica Duna, cujo terceiro filme sai ainda em 2026, e dois anos depois conquistou o público infantil com o musical Wonka. Mais recentemente, voltou ao páreo do Oscar como Bob Dylan em Um Completo Desconhecido (2024), de modo que seu alcance é praticamente universal. Safdie o compara a Tom Cruise e diz que Chalamet “é fluente na língua dos ícones”. No começo de 2025, ao receber um SAG Award por interpretar Dylan, o ator foi categórico: “A verdade é que quero ser um dos grandes. Me inspiro em Daniel Day-Lewis, Marlon Brando e Viola Davis tanto quanto em Michael Jordan e Michael Phelps”, referindo-se aos astros que marcaram época no basquete e na natação.

Nos bastidores de Marty Supreme, Chalamet usou lentes de contato que o deixaram com 6 graus de miopia, para que assim pudesse usar um óculos de verdade em cena. Também passou seis anos treinando tênis de mesa enquanto Safdie trabalhava para tirar o filme do papel, de modo que não precisou de dublê para as partidas. Já para viver Bob Dylan, o ator aprendeu a tocar cerca de quarenta canções do artista com violão e gaita. Nesse processo, pouco saiu do personagem: “Tive três meses para interpretá-lo e cinco anos para me preparar. Deus perdoe se eu tropeçar no trabalho por estar sendo eu mesmo. Posso ser o Timmy pelo resto da minha vida”, argumentou na época do lançamento. Ao que tudo indica, não há pedra no caminho capaz de cansar o astro.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977