A inteligência artificial é o tipo de mudança que não pede permissão. Ela simplesmente acontece e o sistema inteiro começa a se reorganizar ao redor dela. Se você quer entender por que o assunto deixou de ser curiosidade de nicho e virou pauta obrigatória em empresas, governos, universidades e escritórios de advocacia, a resposta não está em slogans. Está em uma sequência simples de ação e reação: quando o dinheiro se move em massa, a infraestrutura nasce; quando a infraestrutura nasce, o uso se espalha; quando o uso se espalha, o mundo muda o ritmo.
Em 2025, o investimento global em IA chegou a US$ 202 bilhões — um salto de 75% em relação ao ano anterior. Mas o ponto mais importante não é apenas quanto se investe. É em que se investe e o que esse investimento cria. Uma parcela enorme dessa aposta não vai para softwares bonitos ou recursos inteligentes. Vai para infraestrutura. Quando os gigantes de tecnologia projetam algo entre US$ 400 e 527 bilhões em investimentos de capital para 2026, eles não estão financiando um modismo. Estão construindo o equivalente moderno de estradas, portos e usinas: centros de dados, redes, chips, energia, armazenamento. É aqui que a IA deixa de ser um produto e começa a virar um piso, uma base invisível que sustenta serviços e decisões. E infraestrutura tem uma característica poderosa: uma vez construída, ela precisa ser usada.
A lógica que se desenha a partir daí é direta. Capacidade maior reduz custo relativo, aumenta disponibilidade, melhora desempenho, atrai desenvolvedores, cria ferramentas mais acessíveis e, na prática, baixa a barreira de entrada. Mais gente testa, mais gente adota, e o que era exceção vira padrão. Quando vira padrão, o mercado inteiro se ajusta, inclusive quem resistiu no começo. Existe um conceito em análise de sistemas que ajuda a enxergar esse tipo de dinâmica: o ciclo de feedback. A ideia é simples. Na vida real, quase nada é linear. O mais comum é algo influenciar outra coisa, que influencia uma terceira, que volta e influencia a primeira. Isso cria ciclos que aceleram ou freiam mudanças. O primeiro tipo é o ciclo de reforço, que funciona como uma bola de neve: quanto mais rola, maior fica. O segundo é o ciclo de equilíbrio, que funciona como um termostato: quando esquenta demais, algo puxa de volta para estabilizar.
Aplique isso à IA e você enxerga o movimento com clareza: mais investimento melhora infraestrutura; infraestrutura melhora capacidade e reduz custo; isso facilita adoção; adoção cria novos casos de uso e retorno; retorno atrai mais investimento. Não é mágica. É dinâmica de sistema. E quando essa roda ganha velocidade, ela começa a aparecer nos lugares onde normalmente demora para aparecer: nos números da economia real. No segundo trimestre de 2025, estimativas indicam que a IA contribuiu entre 1,1 e 1,3 ponto percentual para o crescimento do PIB americano. A IA começa a sair do nível de ferramenta de escritório e encostar no nível macro. Quando algo muda o macro, deixa de ser conversa de nicho.
Outra camada que mostra inevitabilidade é o mercado de trabalho. Projeções do Fórum Econômico Mundial indicam que, até 2030, podem ser 92 milhões de empregos deslocados ao mesmo tempo em que 170 milhões seriam criados. O saldo líquido é positivo, mas o número absoluto de deslocamento é grande. E isso não significa apenas substituir funções, mas, sim, redistribuir tarefas, redesenhar ocupações e reorganizar competências. O mercado já precifica essa mudança. Dados de consultorias mostram que salários crescem duas vezes mais rápido em indústrias mais expostas à IA e que existe um prêmio salarial de mais de 40% para trabalhadores com habilidades na área. Quando uma habilidade passa a ser rara e valiosa dentro de um movimento estrutural, ela vira diferencial econômico. E quando diferencial econômico aparece, mais gente corre atrás, o que acelera o ciclo de adoção.
Dá para resumir a força do movimento em três linhas de causa e consequência: dinheiro constrói infraestrutura; infraestrutura facilita uso; uso cria pressão competitiva e reorganiza processos. Essa base conecta economia, sociedade e advocacia. Na economia, o efeito mais rápido é eficiência e reconfiguração competitiva: quem incorpora melhor a nova camada tecnológica ganha vantagem de custo, tempo, qualidade ou escala. Na sociedade, o efeito mais rápido é mudança de expectativa: as pessoas passam a esperar respostas mais rápidas, serviços mais personalizados, decisões mais assistidas e isso muda a relação com empresas, com o Estado e até com a própria informação. Na advocacia, o efeito mais rápido é mudança na percepção de valor: quando partes do trabalho se tornam mais rápidas e acessíveis, a pergunta implícita do cliente começa a mudar. Não necessariamente para pagar menos, mas para questionar: por que isso leva tanto tempo? O que eu ganho com esse serviço além do documento final? Essa mudança de pergunta, por si só, já é uma mudança de mercado.
No Brasil, esse deslocamento tende a ser ainda mais rápido porque a advocacia opera em um ambiente de escala e digitalização raros no mundo: processos eletrônicos, peticionamento online, intimações automáticas, bases públicas de jurisprudência e um contencioso de massa em que milhares de casos repetem padrões semelhantes (bancos, telecom, consumo, saúde, trabalhista).
Quando a “matéria-prima” do trabalho é texto e dado, e o fluxo já é digital, a IA entra como uma camada natural de triagem e produtividade: organizar documentos, comparar versões, mapear precedentes, identificar teses recorrentes, apontar inconsistências, sugerir estruturas de peças e, principalmente, acelerar o ciclo de análise que hoje consome tempo caro do advogado. Isso tende a mudar o mercado em duas frentes ao mesmo tempo: o cliente corporativo passa a exigir mais previsibilidade e mais velocidade como padrão, e o escritório passa a ser cobrado por clareza estratégica e risco, não apenas por volume de horas e páginas. Em um país que vive de judicialização, essa combinação aumenta a pressão por eficiência e por diferenciação: quem não incorporar essa nova camada verá a sua entrega parecer lenta e cara, mesmo que a qualidade técnica continue alta.
Reconhecer inevitabilidade, porém, não é romantizar. Toda transformação grande carrega tensões. Existe evidência de associação entre investimento em IA e maior desigualdade de renda. Existe uma realidade brutal de acesso: 2,6 bilhões de pessoas ainda não têm internet, o que desenha uma divisão digital que pode virar divisão de oportunidades. E há um gap significativo entre países de alta e média renda na capacidade de implementar regulação adequada. Essas tensões são reais e não dá para fingir que não existem. Mas este artigo não é o lugar de decidir o que elas significam — é o lugar de mostrar que a escala do movimento torna essas decisões inevitáveis também. Não se trata de escolher se vamos lidar com isso, mas como.
O mundo está colocando recursos demais, rápido demais, em infraestrutura demais, para que a IA seja apenas um recurso opcional. E quando algo passa a ser estrutural, surge um efeito que todo mundo reconhece na pele: quem se adapta cedo ganha margem de manobra; quem se adapta tarde opera com menos opções, mais pressão e mais ansiedade. Essa é a diferença entre entrar por escolha e entrar por necessidade. A boa notícia é que inevitabilidade de adoção não significa inevitabilidade de resultado. Os mesmos ciclos que aceleram mudanças podem ser direcionados por decisões humanas: como empresas implementam, como indivíduos se capacitam, como instituições regulam, como a sociedade cria contrapesos. Mas para ter qualquer chance de escolher bem, a primeira etapa é enxergar o tamanho do que está vindo.
Se você quiser uma frase para resumir este ponto de partida, é esta: a IA deixou de ser um assunto de tecnologia e virou um assunto de sistema. Sistema econômico, sistema social, sistema jurídico. E quando o assunto vira sistema, não basta opinião. A gente precisa olhar para as forças em movimento e os números mostram que elas já estão empurrando o mundo.
Os três próximos artigos desta série vão separar caminhos. Primeiro, o cenário em que a IA vira alavanca de inovação e prosperidade. Depois, o cenário em que ela vira armadilha de substituição e concentração. E por fim, o quarto artigo tratará do fiel da balança: o que está nas mãos de empresas e indivíduos para determinar qual cenário prevalece. Mas nada disso faz sentido se a gente não aceitar o ponto mais básico de todos: a mudança já começou, em escala grande, e ela não vai esperar a nossa aprovação para continuar.