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A fórmula paraguaia que atrai indústrias brasileiras para o outro lado da fronteira

Impostos baixíssimos, poucos encargos trabalhistas e estabilidade econômica. Com essa fórmula, o Paraguai atraiu, nos últimos vinte anos, mais de 200 companhias brasileiras para fabricar seus produtos do outro lado da fronteira. Novas fábricas, principalmente dos setores têxtil e de calçados, estão previstas para entrar em operação nos próximos meses. Esse fenômeno industrial é conhecido pelo nome maquila. O sistema foi consagrado pelo México com suas maquiladoras, fábricas de empresas estrangeiras, normalmente situadas próximas à fronteira com os Estados Unidos, que importam matéria-prima com isenção de impostos para produzir bens manufaturados que servirão para abastecer o mercado americano.

arte Paraguai

O sistema de maquila começou no Paraguai no final dos anos 1990, com a criação de um regime tributário especial para atrair empresas estrangeiras e gerar emprego no país. Com a condição de que toda a sua produção seja exportada, companhias que se beneficiam da Lei Maquila têm seus impostos sobre importação de matéria-­prima e componentes zerados e pagam uma alíquota de apenas 1% sobre o valor agregado aos produtos que mandam a outros países. Diversas empresas brasileiras abriram unidades paraguaias de olho nos custos mais baixos, movimento que se intensificou desde a crise de 2014 com a ida da Estrela, marca de brinquedos, da Buddemeyer, fabricante de artigos em tecido para cama e banho, da Koumei, produtora de lâmpadas, e do grupo de moda Lunelli, entre várias outras. De cada dez indústrias maquiladoras no Paraguai, sete têm origem no Brasil.

arte Paraguai

O setor produtivo brasileiro voltou os olhos novamente para o Paraguai neste ano, quando a Lupo, referência em confecção de roupas, anunciou o plano de abrir uma fábrica no país vizinho, sua primeira fora do Brasil. A estimativa da empresa é que, por lá, os custos de produção serão pelo menos 28% menores. “Trata-se de uma reação necessária para aumentar a nossa competitividade”, diz Liliana Aufiero, presidente da Lupo. Nos últimos anos, a indústria têxtil brasileira tem reclamado da invasão de produtos chineses e paraguaios de baixo custo. Uma forma de enfrentar a concorrência crescente de marcas como a chinesa Shein e a paraguaia Blue Design é justamente realocar investimentos para um lugar que permita igualar as condições de produção. A Lupo investiu 25 milhões de reais em sua filial em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu (PR). “O retorno do capital investido deve vir em dois anos e meio, quando a fábrica atingir sua capacidade usual”, diz Aufiero.

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arte Paraguai

As vantagens de produzir no Paraguai não se restringem à carga tributária. Cristiano Corrêa, professor de finanças da faculdade Ibmec, aponta que encargos trabalhistas reduzidos, energia elétrica barata e abundante — graças à Usina de Itaipu —, câmbio estável e segurança jurídica razoável são outros fatores positivos que aliviam o caixa das indústrias. “Toda vez que uma empresa brasileira resolve se instalar no Paraguai em vez de investir mais no Brasil, acaba mandando um recado sobre o que está errado por aqui”, diz Corrêa. O professor avalia que o Brasil não tem condições de se equiparar à realidade paraguaia, mas é crucial melhorar o nosso ambiente de negócios para não afugentar mais investimentos.

Na esteira da Lupo, outras empresas nacionais traçam planos para se instalar no país vizinho. A Kidy Calçados, com fábricas em Mato Grosso do Sul e São Paulo, preencheu a papelada necessária e está fazendo as malas. “Não tem por que não irmos para lá”, diz Ricardo Gracia, diretor da empresa. A fabricante de sapatos infantis espera abrir uma unidade produtiva em Assunção ou Ciudad del Este — os dois principais polos de maquiladoras — neste ano, após seu requerimento para atuar dentro do regime especial ser aprovado pelo governo local. A ideia é importar componentes de São Paulo e finalizar parte da sua linha de produtos em terras paraguaias, de modo que o material dos itens cruzaria a fronteira duas vezes antes de chegar aos pés dos consumidores. Se o plano avançar, a unidade da empresa em Mato Grosso do Sul seria drasticamente enxugada. Gracia aposta que o número de empresas brasileiras que vão procurar o Paraguai deve aumentar consideravelmente nos próximos anos: “Acho que ainda estamos no começo da fila”.

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PROXIMIDADE - Ciudad del Este: um dos principais polos de maquiladoras
PROXIMIDADE – Ciudad del Este: um dos principais polos de maquiladorasTifon Images/Getty Images

O êxodo de empresas rumo ao Paraguai, contudo, não é viável para qualquer negócio. Por mais que amplamente vantajosas do ponto de vista regulatório, as condições produtivas do vizinho esbarram em algumas limitações. “É importante notar que o Brasil não cabe dentro do Paraguai”, diz Fernando Pimentel, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, o segmento que mais exportou fábricas para o país vizinho (veja o quadro). Com uma população não muito maior que a da cidade do Rio de Janeiro, com 6,4 milhões de pessoas, um dos principais desafios do Paraguai é a carência de mão de obra qualificada. Essa dificuldade, somada à dificuldade logística, posiciona apenas as chamadas “indústrias leves” — menos intensivas em maquinário e espaço — como beneficiárias da tendência. É o caso das indústrias têxteis, de plásticos, embalagens e outras manufaturas de baixa complexidade.

Por estarem dentro do Mercosul, fabricantes paraguaios trazem seus produtos ao Brasil sem barreiras relevantes. É uma situação diferente da que ocorre com plataformas de comércio asiáticas, que vêm sendo alvo de restrições do governo federal, como a “taxa das blusinhas”, que cobra 20% de imposto sobre importações de até 50 dólares. “O Paraguai se aproveita da estrutura do Mercosul para exportar esses bens”, diz Uallace Moreira, secretário de desenvolvimento industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mas ele adverte: “É importante que a competição não se baseie em dumping”, ou seja, a prática de preços abaixo do custo de produção para a conquista de mercados.

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INCENTIVO - Liliana Aufiero, da Lupo: custos 28% mais baixos no Paraguai
INCENTIVO - Liliana Aufiero, da Lupo: custos 28% mais baixos no ParaguaiLucas Tannuri//

Por mais que as condições regulatórias do Paraguai sejam, de fato, muito vantajosas, com imposto de apenas 1% sobre o valor agregado, o Brasil não precisaria ir tão longe para ser capaz de segurar as próprias empresas. “Essa competição obriga nosso país a tomar vergonha na cara e arrumar a casa”, diz Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral e consultor. Vicente aconselhou diversas empresas brasileiras a irem para o Paraguai, mas torce para que essa alternativa não seja tão recomendável no futuro. Moreira, do MDIC, elenca as recentes reformas tributária e trabalhista, além de políticas de defesa comercial e concessão de crédito, como medidas essenciais para tornar o Brasil mais competitivo, mas o gargalo ainda é enorme. Para neutralizar o “puxadinho industrial” do Paraguai, é o custo-Brasil que precisa entrar de vez na mira de nossos governantes.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977

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