Nas celas de um presídio latino-americano, os detentos se acumulam aos montes devido a um cruel regime ditatorial. Dois deles conversam: Valentin está lá por apoiar forças subversivas, enquanto Molina é um homossexual condenado por indecência. O segundo, para se distrair, reconta grandes melodramas dos anos 1940 e 1950 estrelados pela mesma atriz, e seu favorito é a história na qual uma misteriosa mulher se exibe em frente a uma teia cintilante. Até aí, a sinopse do novo O Beijo da Mulher Aranha poderia muito bem ser a daquele clássico filmado por Hector Babenco e lançado em 1985. Mas há uma mudança incontornável na figura feminina do devaneio: ela não é mais Sonia Braga em seu auge nas telas, e sim a popstar americana Jennifer Lopez, 56 anos, com suas feições congeladas em mais uma tentativa de alavancar sua instável carreira. O formato também é outro: baseado no espetáculo da Broadway de 1993, o longa que chega aos cinemas na quinta-feira 15 é um musical com números de canto e dança exuberantes, encenados à moda da velha Hollywood. Na abordagem do diretor Bill Condon, contudo, sai a acidez — e o veneno da aranha arde menos do que picada de mosquito.
Surgida em um livro de 1976 do argentino Manuel Puig, a história se destacou por misturar o fascínio genuíno do autor com a cultura pop a uma denúncia às ditaduras latinas apoiadas pelos Estados Unidos. As nuances da trama foram compreendidas profundamente por Babenco, cineasta argentino-brasileiro que almejava uma carreira global. Seu filme foi feito em colaboração com produtores americanos e filmado em São Paulo. Uma vez lançado, conquistou quatro indicações ao Oscar e rendeu o de melhor ator a William Hurt pelo retrato de Molina. Em 1993, quando repensado para a Broadway com a grande Chita Rivera, foi declarado o musical do ano pelo Tony Awards.

Dessa vez, porém, a magia não se repete. Produzido pela atriz junto ao ex Ben Affleck e outros parceiros independentes, o longa ainda nem passou de 2 milhões de dólares nas bilheterias. Recebeu alguns elogios da crítica, sobretudo pelos dotes de Jennifer para coreografias, mas também não engatou até agora na corrida pelo Oscar nem foi indicado ao Globo de Ouro. Parte da razão fica clara nas cenas artificiais. O final, por exemplo, prioriza o idílio romântico em detrimento da tragédia e da metáfora política de outrora. Para Lopez, a mensagem agora é que “o amor cura todas as divisões”, como declarou à Variety. Para quem vê a nova versão com a aracnídea de Sonia Braga na memória, fica difícil engolir esse veneno.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977