A conversa desta semana entre Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, na qual os dois compartilharam preocupações com a situação da Venezuela, expôs mais uma vez o delicado equilíbrio diplomático da região. Em meio ao avanço das negociações entre os Estados Unidos e o governo interino venezuelano, cresce a atenção sobre os possíveis impactos desse rearranjo para o Brasil (este texto é um resumo do vídeo acima).
Em entrevista ao programa Os Três Poderes, o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da ESPM, avaliou os riscos e as oportunidades para o governo brasileiro diante da estratégia adotada por Donald Trump em relação a Caracas.
O que mudou na relação entre EUA e Venezuela?
Segundo Ramirez, já há avanços concretos no diálogo entre Washington e Caracas. Trump chegou a elogiar publicamente a presidente interina venezuelana, classificando-a como mais flexível do que seu antecessor. Um dos sinais mais claros dessa aproximação é o escoamento da produção de petróleo venezuelano para os Estados Unidos — movimento que ocorre em um contexto de bloqueio econômico e pressão militar sobre a costa do país.
“A Venezuela hoje tem poucas alternativas. Há bloqueio, pressão externa e também uma cobrança interna por algum tipo de abertura”, afirma o professor. Mesmo sendo oriunda do chavismo, a presidente interina tem sinalizado disposição para negociar com os americanos.
Onde estão os principais obstáculos desse plano?
O maior entrave, na avaliação do especialista, não está apenas na figura do presidente deposto, mas na estrutura do regime. A Venezuela, lembra Ramirez, é o único país da América do Sul cujas Forças Armadas têm formação explicitamente marxista — um processo que antecede Hugo Chávez e se consolidou ao longo dos anos.
“O chavismo está entranhado nas instituições: Exército, burocracia do Estado, Judiciário, Legislativo e até empresas estatais”, diz. Por isso, uma transição que atenda aos interesses americanos — com abertura econômica e redução da influência bolivariana — tende a ser lenta, complexa e sujeita a resistências internas.
Quais riscos isso traz para o Brasil?
Caso as negociações entre Estados Unidos e Venezuela fracassem, o Brasil pode sentir efeitos políticos indiretos. O motivo central é a proximidade histórica — e ideológica — entre o governo Lula e o regime venezuelano, ainda que essa relação tenha esfriado após o processo eleitoral confuso do ano passado.
O Itamaraty, sob o comando de Mauro Vieira, chegou a fazer críticas públicas a Caracas, gerando um distanciamento diplomático e econômico, embora sem ruptura. “Esse histórico coloca o Brasil numa posição sensível se houver um colapso das negociações”, avalia Ramirez.
O Brasil pode virar peça-chave na mediação?
Paradoxalmente, esse mesmo contexto abre uma oportunidade. Com as relações restabelecidas entre Brasília e Washington após o fim do tarifaço e com elogios recentes de Trump ao governo Lula, o Brasil pode se apresentar como interlocutor confiável.
“O Brasil tem condições de atuar como mediador e ajudar a apaziguar os ânimos, pressionando por uma transição democrática e pacífica na Venezuela”, afirma o cientista político. Para ele, essa mediação seria especialmente relevante se o diálogo direto entre americanos e venezuelanos enfrentar impasses.
E os impactos econômicos?
No curto prazo, Ramirez vê efeitos limitados para o Brasil. A queda dos preços do petróleo e a desvalorização de ações do setor refletem mais a incerteza global sobre como essa transição será conduzida do que um choque direto na economia brasileira.
“O mercado internacional olha para a Venezuela e se pergunta como, de fato, essa transição será feita”, resume. Com uma estrutura chavista profundamente enraizada, a resposta dificilmente será rápida — e é justamente essa indefinição que mantém investidores em alerta.
Entre riscos e oportunidades, o Brasil caminha sobre uma linha tênue: pode ser afetado por um eventual fracasso diplomático, mas também pode emergir como ator central num dos tabuleiros geopolíticos mais sensíveis do continente.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do programa audiovisual Os Três Poderes (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.