Quem diria que um sérum com mucina de caracol — aquela textura elástica, quase pegajosa — se tornaria item fixo na rotina de beleza de milhões de pessoas ao redor do mundo? Ou que “esperma de salmão” viralizaria de tal forma, que mesmo com uso restrito no Brasil, é muito procurado para tratamentos faciais? Sem contar o fenômeno da glass skin — ou “pele de vidro”, um cuidado facial composto por medidas e produtos que prometem uma tez translúcida, radiante e com brilho natural.
É fato que a beleza coreana, ou K-Beauty, deixou há muito tempo de ser apenas uma moda importada da internet. Em 2024, o mercado doméstico já movimentava cerca de US$ 13 bilhões, com crescimento acelerado em diversas categorias. No primeiro semestre de 2025, a Coreia do Sul ultrapassou a França e se tornou o segundo maior exportador de produtos de beleza do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos — um marco simbólico para um país que transformou inovação estética em política de Estado.
Essa força, porém, não se limita aos cosméticos. Nos últimos anos, a Coreia do Sul passou a exportar também tecnologia estética de ponta, especialmente equipamentos e protocolos que hoje ocupam espaço central em clínicas dermatológicas e consultórios de estética no Brasil e no mundo. Máquinas como o Liftera, de ultrassom micro e macrofocado, e o Coolfase, tecnologia coreana de radiofrequência monopolar, seguem a mesma lógica dos cosméticos coreanos: resultados eficientes, protocolos rápidos e foco absoluto na qualidade da pele.
“O grande diferencial das tecnologias coreanas é a combinação entre potência e precisão”, explicou Karine Calde a VEJA. “O Liftera, por exemplo, permite trabalhar diferentes profundidades da pele com muito controle, estimulando colágeno sem comprometer a naturalidade do resultado. É um tratamento que conversa diretamente com o conceito de glass skin, só que levado ao universo médico.”
Já o Coolfase se tornou um dos aparelhos mais procurados por sua capacidade de melhorar textura, firmeza e viço da pele com resultados significativos. “A radiofrequência coreana tem um pensamento muito inteligente de entrega de energia”, afirmou o dermatologista Otávio Macedo. “O Coolfase aquece profundamente, mas de forma homogênea, o que gera estímulo de colágeno com conforto para o paciente e resultados progressivos — algo que o público atual valoriza muito.”
Movimento Global
Essa expansão da K-Beauty para além do skincare reforça um movimento global: a busca por tratamentos menos invasivos, com manutenção contínua e foco em prevenção do envelhecimento, não em transformações radicais. Um pensamento que nasce na cultura coreana, onde a pressão por pele impecável sempre foi alta, mas que hoje encontra eco em mercados como o brasileiro, europeu e americano.
De acordo com a BBC de Londres, esse avanço é sustentado por um ecossistema industrial extremamente ágil. Fabricantes permitem que novas fórmulas, tecnologias e equipamentos sejam desenvolvidos e lançados em tempo recorde — muitas vezes em menos de seis meses. O mesmo raciocínio vale para as máquinas estéticas: atualização constante, protocolos moduláveis e rápida resposta às demandas do mercado.
Não por acaso, o governo sul-coreano declarou recentemente a K-Beauty um ativo estratégico nacional, prometendo apoio direto à indústria. A decisão reconhece um setor que começou com tendências virais, mas hoje impacta exportações, geração de empregos e influência cultural global.
Ou seja, da mucina de caracol às plataformas de ultrassom e radiofrequência, a beleza coreana cada vez mais mostra que seu verdadeiro segredo nunca um ou outro ingrediente exótico, mas sim a capacidade de transformar inovação em sistema, estética em tecnologia e desejo em economia.