Após ser alvo de um pedido de impeachment, o prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, enfrenta agora a tentativa de uma abertura de CPI contra ele na Câmara de Vereadores da cidade. A motivação da investigação é apurar a nomeação considerada irregular de um cargo de procurador do município.
O pedido de abertura da comissão parlamentar de inquérito foi encabeçado pelo vereador Thiago Medina, líder do PL na Câmara, e conta com nove assinaturas, faltando quatro para atingir o número necessário para a abertura da investigação.
Se aberta, a CPI terá como objeto central apurar indícios de favorecimento indevido em concurso público municipal, especificamente na nomeação de um candidato em vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD). Segundo a denúncia, o resultado do certame teria sido alterado posteriormente para incluir um segundo candidato, filho de uma procuradora, o que levanta questionamentos sobre o cumprimento dos princípios da impessoalidade, moralidade administrativa e isonomia.
Vereadores signatários da CPI:
- Alef Collins (PP)
- Thiago Medina (PL)
- Felipe Alecrim (Novo)
- Davi Muniz (PSD)
- Eduardo Moura (Novo)
- Gilson Machado Filho (PL)
- Fred Ferreira (PL)
- Alcides Teixeira Neto (Avante)
- Paulo Muniz (PL)
Nas redes sociais, Campos chamou o pedido de impeachment (que abriu espaço para a tentativa de abertura de uma CPI) de oportunismo eleitoral. Em resposta, Medina criticou o posicionamento, xingou o prefeito de canalha que acha que pode mandar no estado de Pernambuco e disse ainda acreditar que conseguirá as quatro assinaturas que faltam nos próximos dias.
Bem aprovado e favorito ao governo
João Campos é o quinto prefeito de capital com maior aprovação do país, com 64% em ranking divulgado em dezembro pelo instituto AtlasIntel, e é apontado como um dos principais nomes para uma futura e eventual renovação do campo da esquerda no Brasil.
Além disso, segundo o instituto Paraná Pesquisas, ele é, hoje, o favorito na eleição para o governo de Pernambuco em 2026. De acordo com o levantamento divulgado no final de dezembro, em um eventual primeiro turno, ele teria 53,1% das intenções de voto contra 31,0% da atual governadora, Raquel Lyra (PSD).
VEJA procurou a equipe do prefeito do Recife, que disse que não irá emitir nenhuma nota sobre a tentativa de abertura da CPI contra ele. Fontes próximas de João Campos disseram acreditar que nem o pedido de impeachment e nem a CPI consigam as assinaturas necessárias para prosperar na Câmara dos Vereadores.
Polêmica sobre nomeação irregular
Tanto o pedido de impeachment quanto a tentativa de investigação por uma CPI tratam da nomeação irregular de Lucas Vieira da Silva para o cargo de procurador do município em uma vaga reservada a Pessoas com Deficiência (PCD), sendo que ele ficou na 63ª posição e, quando fez a prova do concurso, não possuía laudo de PCD e nem concorreu às vagas afirmativas, mas apenas as de livre concorrência.
A nomeação, assinada por Campos, estava em desacordo com o edital do concurso e gerava prejuízo a outro candidato, que tinha direito à vaga por já apresentar laudo de PCD quando fez a prova, e foi publicada no Diário Oficial do Município em 23 de dezembro de 2025. A nomeação ocorreu após um pedido de reclassificação de Lucas feito mais de três anos após o concurso, realizado em realizado em 2022 e homologado em junho de 2023.
Em 29 de maio de 2025, Lucas Vieira solicitou a requalificação para concorrer como PCD, pedido que foi negado por três procuradoras concursadas do município em decisões técnicas sucessivas. Mesmo assim, quando o caso foi encaminhado ao procurador-geral do município, Pedro Pontes, cargo comissionado indicado pelo prefeito João Campos, a situação foi revertida.
Após repercussão negativa do caso e pressão popular, a gestão municipal decidiu revogar a nomeação. “Quando o prefeito descumpre o edital, ele pratica um ato contra a expressa disposição legal”, enfatizou o vereador Eduardo Moura, que protocolou o pedido de Impeachment. Para ele, o caso ainda infringiu dispositivos da Lei Orgânica do Município, da Lei de Improbidade Administrativa, do Decreto de Lei 201, e até do Código Penal. “Os atos atentam contra a probidade administrativa e contra o cumprimento das leis, o que configura crime de responsabilidade”, justificou.
Eduardo Moura também alertou para suspeita de possível favorecimento do candidato, uma vez que Lucas Vieira é filho de uma procuradora do Tribunal de Contas do Estado e de um juiz que atua na vara de crimes contra a administração pública da capital, e que, em novembro de 2025, um mês antes da nomeação de Lucas, anulou os atos da Operação Barriga de Aluguel, que investigava a gestão de João Campos por possível desvio de verbas no valor de 500 milhões de reais.