A volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à agenda oficial em Brasília, após dois dias de descanso, é acompanhada com atenção redobrada pelo mercado financeiro. Em meio à escalada de tensão envolvendo a Venezuela e os Estados Unidos, investidores veem menos risco nas decisões concretas do governo e mais nas palavras que podem ser ditas — ou mal colocadas — nos próximos dias (este texto é um resumo do vídeo acima).
A avaliação é do economista Lucas Ferraz, coordenador do Centro de Negócios Globais da FGV, em entrevista ao programa Mercado. Para ele, o histórico recente mostra que o Brasil já deixou clara sua posição contrária à ação americana na Venezuela. O problema agora é o tom.
O posicionamento do Brasil já estava dado?
Segundo Ferraz, não houve surpresa no posicionamento brasileiro contra a invasão da Venezuela. Desde a retomada do diálogo diplomático com os Estados Unidos, no segundo semestre do ano passado, o Itamaraty já havia sinalizado que o Brasil seria obrigado a se opor a uma ação militar.
Esse recado foi transmitido após encontros entre Lula e Donald Trump, na ONU, e em conversas posteriores entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o chanceler brasileiro Mauro Vieira. Pesaram, nesse cálculo, tanto a relação histórica do atual governo com Caracas quanto o papel tradicional do Brasil como mediador regional.
Se não houve surpresa, onde está o risco?
O alerta do mercado não está na posição diplomática em si, mas no que pode vir a seguir. Para Ferraz, o cenário atual é especialmente sensível porque não houve mudança de regime na Venezuela — e Trump tem sido explícito ao afirmar que seu interesse central não é a democracia, mas o petróleo.
A prioridade americana, segundo o economista, é recuperar ativos expropriados no passado pelo chavismo e garantir acesso às reservas venezuelanas. Isso cria um ambiente de instabilidade política interna no país vizinho e amplia a incerteza sobre qualquer retomada de produção, que exigiria segurança jurídica e investimentos de centenas de bilhões de dólares.
Por que uma declaração pode mexer tanto com o mercado?
Na avaliação de Ferraz, o maior risco está em eventuais falas improvisadas do presidente brasileiro. Lula, diz ele, tem histórico de declarações mais duras contra os Estados Unidos, o que pode contaminar um momento delicado das negociações comerciais.
Hoje, cerca de 41% das exportações brasileiras para os EUA — algo próximo de 16 bilhões de dólares, com base em valores de 2024 — ainda estão sujeitas a tarifas de 50%. As reduções já concedidas por Washington foram decisões unilaterais, motivadas por pressões internas americanas e não por acordos bilaterais com o Brasil.
O tarifaço pode voltar ao centro do jogo?
Para o mercado, sim. Qualquer escalada verbal pode servir de pretexto para que os Estados Unidos revertam concessões recentes. “O risco maior neste momento é uma declaração mal feita do presidente Lula ou do governo brasileiro, que pode novamente contaminar a relação bilateral”, afirmou Ferraz.
Em um cenário em que a redução das tarifas ainda não está garantida por negociação formal, o tom do Planalto passa a ser visto como variável-chave para evitar nova rodada de volatilidade — e prejuízos concretos para exportadores brasileiros.
Enquanto isso, investidores seguem atentos não apenas aos fatos, mas às palavras que virão do Palácio do Planalto. Em tempos de tensão geopolítica, uma frase pode custar bilhões.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do programa audiovisual Mercado (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.