O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (6) que o governo americano poderá usar recursos dos contribuintes para reembolsar empresas de energia que invistam na recuperação da infraestrutura petrolífera da Venezuela, devastada por décadas de má gestão, nacionalizações e sanções internacionais.
Segundo Trump, a retomada da produção de petróleo no país sul-americano exigirá “uma quantidade enorme de dinheiro”, que seria inicialmente aportada pelas grandes companhias do setor, com posterior compensação financeira por parte do governo americano ou por meio da receita futura da própria produção.
“Será necessário gastar um montante gigantesco. As empresas de petróleo vão investir, e depois serão reembolsadas por nós ou pela receita gerada”, declarou o presidente, ao comentar os planos de Washington para o pós-Maduro.
A fala reforça a estratégia da Casa Branca de reposicionar a Venezuela como um dos pilares do abastecimento energético dos Estados Unidos, após a operação militar que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro no fim de semana. A iniciativa, no entanto, levanta questionamentos sobre o custo fiscal, os riscos políticos e a legalidade de um eventual socorro estatal a empresas privadas em território estrangeiro.
Aproximação com gigantes do petróleo
De acordo com a agência Reuters, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, deve se reunir nos próximos dias com executivos da Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips durante a conferência Energy, Clean Tech & Utilities, organizada pelo Goldman Sachs, em Miami.
O objetivo é discutir caminhos para ampliar a produção venezuelana e reativar projetos paralisados desde as nacionalizações promovidas pelo chavismo, a partir dos anos 2000.
As conversas são consideradas centrais para o plano do governo Trump de recolocar petroleiras americanas no país que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas cuja produção despencou de cerca de 3,5 milhões de barris por dia em 1999 para pouco mais de 1,1 milhão atualmente.
Apesar das declarações presidenciais, fontes do setor ouvidas pela Reuters afirmam que, até agora, nenhuma das três grandes companhias manteve conversas diretas com a Casa Branca sobre a queda de Maduro ou sobre uma eventual retomada imediata das operações no país.
O contraste expõe ruídos entre o discurso político e a cautela empresarial.
Infraestrutura degradada e incertezas jurídicas
Analistas do setor energético alertam que a reconstrução do parque petrolífero venezuelano demandará investimentos bilionários ao longo de vários anos. Refinarias sucateadas, oleodutos corroídos, falta de equipamentos e perda de mão de obra especializada são entraves estruturais que não podem ser resolvidos no curto prazo.
Além disso, persistem dúvidas sobre o marco legal que regerá a atuação das empresas estrangeiras. Durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, contratos foram revistos unilateralmente, ativos foram expropriados e disputas internacionais se multiplicaram. ExxonMobil e ConocoPhillips, por exemplo, deixaram o país após a nacionalização de seus projetos, no fim da década de 2000.
Hoje, a Chevron é a única grande empresa americana ainda presente na Venezuela, operando sob licenças específicas concedidas durante o período de sanções.
Mercado reage, mas cautela persiste
Mesmo diante das incertezas, o mercado financeiro reagiu positivamente às declarações de Trump. O índice de energia do S&P 500 atingiu nesta segunda-feira o maior nível desde março de 2025. As ações da ExxonMobil subiram 2,2%, enquanto os papéis da Chevron avançaram 5,1%.
Especialistas, porém, ponderam que o entusiasmo pode ser prematuro. A estabilidade política da Venezuela, o papel da nova liderança em Caracas, a reação da comunidade internacional e a própria disposição do Congresso americano em bancar reembolsos bilionários são fatores ainda em aberto.