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Lago Maracaibo, maior da América do Sul, apodrece sob o chavismo e os escombros da era do petróleo

À primeira vista, o Lago Maracaibo parece coberto por um tapete verde-esmeralda que reflete o sol inclemente do oeste venezuelano. De perto, porém, a paisagem revela um cenário de colapso.

A água espessa, impregnada de óleo cru, lixo doméstico e microalgas tóxicas, exala um odor ácido que se espalha pelas palafitas de Santa Rosa de Agua, pelas margens de Cabimas e pelos antigos polos petrolíferos do Estado de Zulia.

O que já foi o coração energético da Venezuela hoje se tornou um dos mais graves desastres ambientais da América Latina.

Com cerca de 13 mil quilômetros quadrados, o Lago Maracaibo é um dos corpos d’água mais antigos do planeta e o maior da América do Sul. Foi ali que, no início do século XX, a Venezuela se projetou como potência petrolífera. Um século depois, o lago simboliza o avesso dessa história: a degradação ambiental acelerada pelo colapso econômico, pela má gestão estatal e pelas políticas extrativistas do chavismo.

Um lago transformado em esgoto industrial

Ambientalistas, pesquisadores e moradores concordam em um diagnóstico: o lago deixou de funcionar como ecossistema e passou a operar como um gigantesco depósito de resíduos. Mais de uma centena de rios e canais despejam no Maracaibo esgoto doméstico, fertilizantes agrícolas, dejetos industriais e resíduos da pecuária. Estados inteiros do oeste venezuelano — Zulia, Mérida e Trujillo — lançam seus efluentes sem tratamento adequado nas águas do lago. Parte da poluição vem também da Colômbia, através de rios transfronteiriços.

O excesso de nitrogênio e fósforo alimenta a proliferação descontrolada de cianobactérias, conhecidas localmente como verdin. Trata-se de um microrganismo altamente tóxico, produtor de microcistina, substância que afeta o fígado, provoca irritações cutâneas, contamina peixes e compromete o uso da água para consumo humano.

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“O lago entrou em um processo clássico de eutrofização extrema, mas em escala inédita”, explica Beltrán Briceño, professor da Universidade de Zulia. “As algas bloqueiam a luz solar, impedem a fotossíntese, consomem oxigênio e provocam a morte em massa da vida aquática.”

O petróleo como origem e agravante

Embora a poluição urbana e agrícola seja decisiva, especialistas são categóricos ao apontar o petróleo como fator estrutural do desastre. O Lago Maracaibo abriga dezenas de milhares de quilômetros de dutos submersos, muitos deles corroídos, abandonados ou sem manutenção há décadas. Plataformas enferrujadas e oleodutos rachados vazam óleo de forma quase contínua.

A indústria petrolífera da região entrou em colapso progressivo a partir dos anos 2000, quando o governo de Hugo Chávez promoveu uma estatização agressiva da PDVSA, expulsou quadros técnicos, politizou a gestão e desviou recursos para programas assistenciais.

O investimento em manutenção, segurança ambiental e modernização despencou.

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Sob Nicolás Maduro, o cenário se agravou. A produção caiu de mais de 3 milhões de barris por dia no fim dos anos 1990 para menos de 1 milhão. Sem recursos, sem tecnologia e sob sanções internacionais, a PDVSA abandonou parte da infraestrutura. O resultado foi um aumento exponencial de vazamentos, sem capacidade de resposta do Estado.

“O petróleo não só contaminou o lago diretamente, como criou as condições ideais para o avanço das algas”, afirma o biólogo Lenín Parra, da ONG X Lago de Maracaibo. “O óleo se decompõe e libera nutrientes que funcionam como fertilizante.”

A falência da governança ambiental

O colapso ambiental do lago é também o retrato da implosão institucional da Venezuela. Estações de tratamento de esgoto foram saqueadas, desmontadas ou simplesmente deixadas à própria sorte. Órgãos ambientais perderam orçamento, técnicos e autonomia. Fiscalizações praticamente inexistem.

Estudos recentes baseados em imagens de satélite e modelagem geoespacial indicam um desequilíbrio ecológico severo em toda a bacia hidrográfica venezuelana, com impacto direto no Maracaibo. Pesquisas apontam um índice de equilíbrio ambiental negativo, refletindo degradação sistêmica associada à exploração petrolífera, ao desmatamento e ao colapso da gestão hídrica.

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“O lago está sendo tratado como uma fossa”, resume Alejandro Álvarez, da organização Clima21. “Não existe política pública integrada. O Estado desapareceu.”

Pesca em colapso e comunidades à deriva

Nas comunidades ribeirinhas, o impacto é imediato. Pescadores relatam que capturas que antes alcançavam centenas de quilos hoje mal chegam a alguns poucos quilos por semana. Redes são inutilizadas pelo óleo. Motores entopem. Peixes somem das margens.

“Antes, a gente vivia do lago. Agora, o lago está matando a gente”, diz José Aular, pescador há mais de quatro décadas, que desenvolveu lesões na pele após contato frequente com a água contaminada.

A crise alimentar se soma à crise sanitária. Moradores usam a água do lago para lavar roupas, cozinhar e até beber, em um país onde o acesso à água potável é intermitente. Casos de intoxicação, doenças de pele e problemas gastrointestinais se multiplicam.

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Chavismo, extrativismo e negação

Apesar do discurso oficial sobre “agenda verde” e “recuperação ambiental”, ações concretas são pontuais, fragmentadas e insuficientes. Mutirões de limpeza removem lixo visível, mas não enfrentam as causas estruturais do problema.

Para críticos, o chavismo nunca rompeu com o modelo extrativista que dizia combater. Ao contrário, aprofundou a dependência do petróleo, destruiu mecanismos de controle ambiental e transformou a indústria em instrumento político.

“O lago é vítima do mesmo modelo que quebrou a economia venezuelana”, afirma um ex-técnico da PDVSA que pediu anonimato. “Centralização, improviso, ideologia no lugar de gestão.”

Um ponto de não retorno

Especialistas alertam que o Lago Maracaibo se aproxima de um ponto de irreversibilidade. Sem investimentos massivos em saneamento, recuperação da infraestrutura petrolífera, tratamento de esgoto e governança ambiental, o ecossistema pode colapsar de forma definitiva.

O paradoxo é brutal: o lago que financiou o projeto político do chavismo agora expõe seus limites. Onde antes fluía riqueza, restam resíduos. Onde havia promessa de soberania energética, há abandono. O Maracaibo agoniza como síntese de um país que trocou desenvolvimento sustentável por exploração sem futuro.

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