A captura de Nicolás Maduro — que intensificou as tensões envolvendo a Venezuela — não representa um fato isolado, mas a consolidação de uma mudança profunda na estratégia internacional dos Estados Unidos. A avaliação é do pesquisador Vitelio Brustolin, da Universidade de Harvard, em entrevista ao programa Mercado, apresentado por Veruska Donato (este texto é um resumo do vídeo acima).
Segundo ele, a reorientação da política externa americana, com foco explícito na América do Sul, já estava desenhada e tende a redefinir a geopolítica global, com reflexos diretos na economia e na segurança internacional.
A prisão muda o cenário geopolítico?
Na leitura de Brustolin, não. O pesquisador afirma que a atual escalada já vinha sendo anunciada desde o início do ano pelo governo de Donald Trump, especialmente após a divulgação da Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, em dezembro.
O documento sinaliza que Washington passou a tratar o mundo como um tabuleiro dividido em áreas de influência de grandes potências militares — lógica que, segundo ele, remete ao acordo informal entre Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Priorizar áreas de influência aproxima ou afasta o mundo da paz?
Para Brustolin, afasta. O pesquisador avalia que a divisão do planeta em zonas de interesse estratégico aumenta o risco de conflitos em larga escala. A Europa, observa, já responde a esse cenário com um movimento de rearmamento sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, incluindo investimentos de centenas de bilhões de euros em defesa.
O objetivo, segundo ele, é dissuadir possíveis avanços da Rússia sobre países da Otan, especialmente no Leste Europeu — um movimento que, longe de estabilizar o cenário, amplia a tensão global.
Como a Ásia entra nessa equação?
O pesquisador destaca que a Ásia-Pacífico se tornou outro foco crítico. Exercícios militares da China em torno de Taiwan, o apoio financeiro dos Estados Unidos à ilha e declarações do Japão em defesa de Taiwan agravaram crises diplomáticas recentes.
Além disso, países como Japão e Coreia do Sul já discutem a possibilidade de armamento nuclear, um sinal claro de que o ambiente de segurança regional se deteriora rapidamente.
E a Venezuela, qual o papel nesse novo tabuleiro?
Na avaliação de Brustolin, a Venezuela é peça central na estratégia americana para a América do Sul. A pressão sobre o regime busca enfraquecer financeiramente o governo, especialmente por meio do controle sobre o petróleo e o combate ao narcotráfico.
Ele lembra que empresas americanas ainda mantêm interesses diretos no país, o que ajuda a explicar por que o mercado reagiu de forma pontual aos acontecimentos.
Houve impacto imediato na economia?
O impacto econômico, até agora, foi limitado. Brustolin observa que não houve grandes oscilações nos mercados globais, com exceção da valorização de ativos ligados ao setor de petróleo venezuelano.
Empresas americanas com operações ou disputas judiciais na região — especialmente no setor energético — tendem a acompanhar de perto os desdobramentos, mas o pesquisador ressalta que ainda é cedo para prever efeitos econômicos mais amplos.
O que esperar daqui para frente?
Para o pesquisador, o cenário é de incerteza crescente. A tentativa dos Estados Unidos de reorganizar a ordem internacional a partir de áreas de influência não reduz tensões — ao contrário, cria incentivos para disputas simultâneas na Europa, na Ásia e agora na América do Sul.
“Essa não é uma estratégia que aproxima o mundo da paz”, avalia. Para o Brasil e a região, o alerta está dado: a geopolítica voltou ao centro do jogo, com riscos que vão muito além das fronteiras venezuelanas.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do programa audiovisual Mercado (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.