Democratas dentro e fora do Congresso reagiram com rapidez à ordem do presidente Donald Trump para atacar a Venezuela e capturar o presidente Nicolás Maduro, classificando a operação como ilegal, motivada por interesses estratégicos e uma tentativa de desviar a atenção de dificuldades domésticas.
Sem controle do Executivo e ainda sem uma liderança clara, vozes influentes do partido — muitas delas vistas como potenciais candidatos à Presidência em 2028 — passaram a criticar publicamente Trump poucas horas após a operação, em redes sociais e entrevistas à imprensa.
A deputada Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York) afirmou que a ação não teve relação com combate às drogas. “Não é sobre drogas. É sobre petróleo e mudança de regime”, escreveu. Para ela, a captura de Maduro serviria para “criar uma aparência de legalidade” e distrair o debate público de temas como o custo da saúde e escândalos envolvendo aliados do presidente.
Pete Buttigieg, ex-candidato presidencial e ex-secretário de Transportes no governo Joe Biden, disse que Trump segue um “padrão antigo e previsível”. Segundo ele, “um presidente impopular, com problemas econômicos e perdendo apoio interno, decide lançar uma guerra de mudança de regime no exterior”.
Críticas semelhantes foram feitas pelo governador de Illinois, JB Pritzker, e pelo senador Chris Murphy (Connecticut), que relacionaram a ofensiva militar à agenda doméstica de Trump e ao custo de vida, tema central para os democratas às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.
“Essa ação militar inconstitucional coloca nossas tropas em risco sem uma estratégia de longo prazo”, escreveu Pritzker. “Os americanos merecem um presidente focado em tornar a vida mais acessível.”
Murphy afirmou que o aumento de gastos militares aprovado no ano passado “serviu para invadir e administrar a Venezuela”, enquanto cortes em programas sociais, como Medicaid e assistência alimentar, teriam financiado a ofensiva.
Os senadores Mark Kelly e Ruben Gallego, ambos do Arizona e veteranos de guerra, adotaram um tom crítico com base na experiência militar.
Kelly classificou Maduro como “um ditador brutal e ilegítimo”, mas alertou que a derrubada de um líder não garante estabilidade ou democracia.
Gallego afirmou que esta é a “segunda guerra injustificada” que presencia em sua vida adulta. Em entrevista à Fox News, declarou que “os americanos não querem voltar a ser uma força de ocupação nem o policial do mundo”.
O deputado Ro Khanna (Califórnia) aproveitou o episódio para mobilizar sua base política. Em mensagens e publicações, defendeu “nenhuma nova guerra estúpida” e convocou apoio contra um conflito com a Venezuela. Mais tarde, criticou colegas que permaneceram em silêncio. “Se você não consegue se opor a uma guerra de mudança de regime por petróleo, não tem clareza moral nem coragem para liderar”, escreveu.
Sanders chama ataque de Trump à Venezuela de ilegal e pede ação do Congresso
O senador americano Bernie Sanders (independente, Vermont) condenou no domingo (4) a ofensiva militar ordenada pelo presidente Donald Trump contra a Venezuela, classificando-a como “ilegal, perigosa e inconstitucional”. Em vídeo publicado nas redes sociais, Sanders afirmou que o presidente dos Estados Unidos “não tem autoridade para arrastar unilateralmente o país para uma guerra”, mesmo contra “um ditador corrupto e brutal como Nicolás Maduro”.
“O presidente não pode iniciar uma guerra por conta própria”, disse Sanders, acrescentando que a operação viola tanto a Constituição dos EUA quanto o direito internacional. O senador pediu que o Congresso aprove com urgência uma resolução de poderes de guerra para interromper o que chamou de “operação militar ilegal” e retomar o controle legislativo sobre decisões de guerra e paz.
Sanders também alertou que a intervenção não tornará os Estados Unidos nem o mundo mais seguros e comparou a lógica usada por Washington à retórica adotada pelo presidente russo, Vladimir Putin, para justificar a invasão da Ucrânia. Para ele, trata-se de um precedente perigoso de mudança de regime pela força.
O senador criticou ainda o que descreveu como uma reedição da Doutrina Monroe, que chamou de “ideologia imperialista”, e afirmou que menções recorrentes ao petróleo venezuelano indicam motivações econômicas por trás da ação militar. “Enquanto quase 60% dos americanos vivem de salário em salário, o governo prefere se aventurar militarmente no exterior”, disse.
As críticas democratas ecoam avaliações de analistas e de parte da imprensa internacional.
Veículos como The Guardian e Financial Times destacaram dúvidas sobre a legalidade da operação, realizada sem autorização prévia do Congresso, e compararam a captura de Maduro a intervenções passadas dos EUA na América Latina, como a invasão do Panamá em 1989.
Já a Reuters apontou preocupação entre aliados europeus com o risco de escalada militar e instabilidade regional.
A ofensiva contra Maduro, segundo observadores, aprofundou a polarização política em Washington e reacendeu o debate sobre os limites do poder presidencial em operações militares no exterior, tema recorrente desde as guerras do Afeganistão e do Iraque.