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2026: o ano em que a ação climática sai do papel ou perde tração

Depois de uma década dominada por promessas, metas e anúncios grandiosos, 2026 surge como um teste decisivo para a política climática global. Não é mais uma discussão sobre ambição, mas sobre execução. A pergunta central deixou de ser “o que os países pretendem fazer” e passou a ser “quem consegue entregar”.

Esse deslocamento ocorre num contexto político adverso.

O retorno de Donald Trump à Casa Branca reforçou uma postura abertamente hostil à cooperação climática internacional, estimulando uma retração americana em fóruns multilaterais e enfraquecendo o efeito de liderança que os Estados Unidos exerceram em momentos-chave da última década.

Com isso, o centro de gravidade da agenda climática se desloca ainda mais para fora de Washington, sobretudo para a União Europeia, China e países emergentes estratégicos.

Ao mesmo tempo, 2025 caminha para figurar entre os anos mais quentes já registrados, segundo dados consolidados de instituições como a Organização Meteorológica Mundial e o Copernicus Climate Change Service.

O contraste entre recordes de temperatura e a lentidão institucional ajuda a explicar por que 2026 ganhou um peso simbólico tão grande.

Europa testa sua própria credibilidade

Nenhuma região sente essa pressão de forma tão direta quanto a União Europeia. O bloco se apresenta há anos como referência regulatória global em clima, mas agora enfrenta o momento mais delicado de sua estratégia: transformar regras em efeitos reais.

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O principal símbolo desse desafio é a entrada em vigor plena do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), o chamado imposto de carbono sobre importações intensivas em emissões, como aço, cimento e fertilizantes.

A lógica é simples: produtos importados devem obedecer a padrões ambientais semelhantes aos exigidos pelas indústrias europeias ou pagar por isso.

Na prática, o CBAM testa três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, a capacidade da UE de proteger sua indústria sem provocar uma escalada comercial. Segundo, a disposição de parceiros comerciais, especialmente países em desenvolvimento, de aceitar regras ambientais impostas de fora. Terceiro, se o instrumento realmente induz políticas climáticas mais ambiciosas em outros países, como Bruxelas aposta.

Sinais iniciais são mistos. Economias como a Turquia já discutem sistemas próprios de precificação de carbono para evitar perdas competitivas.

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Em paralelo, países do Sul Global alertam para o risco de o CBAM funcionar como uma barreira disfarçada ao desenvolvimento, reacendendo tensões históricas entre clima e crescimento econômico.

A transição energética acelera, mas de forma desigual

Enquanto a política enfrenta atritos, o setor energético avança por outra lógica: escala e custo.

Em 2026, grandes projetos de energia solar, eólica e armazenamento entram em operação em diferentes partes do mundo, reforçando uma tendência clara, a transição avança não apenas por consciência ambiental, mas porque se tornou economicamente viável.

Megaempreendimentos solares no Egito e nas Filipinas, parques eólicos offshore no Mar do Norte e investimentos pesados em baterias mostram que a infraestrutura limpa já não é periférica.

Segundo a Agência Internacional de Energia, o crescimento das renováveis hoje é mais rápido do que qualquer projeção feita há dez anos.

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Ainda assim, a expansão é desigual. Gargalos em cadeias de suprimento, juros elevados e incertezas regulatórias continuam travando projetos em mercados menos estáveis.

A transição, ao contrário do discurso homogêneo, avança em velocidades distintas, e isso tem implicações geopolíticas profundas.

Transparência: o novo campo de batalha

Outro eixo silencioso, mas decisivo, da agenda climática em 2026 é a obrigatoriedade de divulgação de dados ambientais. Depois de anos de relatórios voluntários e métricas inconsistentes, empresas em várias regiões passam a enfrentar exigências legais mais rígidas.

União Europeia, Reino Unido, China, Austrália, Hong Kong e Singapura caminham para padrões mais abrangentes, incluindo emissões indiretas ao longo da cadeia produtiva, o chamado escopo 3. A ideia é simples: sem dados comparáveis e verificáveis, a transição vira marketing.

Esse movimento, porém, enfrenta resistência crescente. O fenômeno das empresas evitando falar de clima para escapar de críticas ou processos revela um paradoxo: quanto mais central a agenda ambiental se torna, maior o risco jurídico e reputacional associado a ela.

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Nos Estados Unidos, esse embate é ainda mais explícito. Leis estaduais da Califórnia sobre divulgação climática enfrentam batalhas judiciais, mostrando como o tema se tornou um campo de disputa política, não apenas técnica.

O impasse dos combustíveis fósseis

Talvez o ponto mais revelador do momento atual seja a dificuldade em avançar no debate sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Apesar de mais de 80 países defenderem um roteiro claro para essa transição na COP30, realizada no Brasil, o consenso não veio.

O tema retorna em 2026 em encontros internacionais e prepara o terreno para a COP31, na Turquia. A questão central permanece sem resposta clara: como conciliar segurança energética, estabilidade econômica e cortes rápidos de emissões?

Países produtores temem perder receitas e influência. Países consumidores temem instabilidade de preços e choques sociais. O resultado é um jogo de empurra que adia decisões estruturais, mesmo quando os sinais físicos da crise climática se tornam cada vez mais evidentes.

Tecnologia avança mais rápido que a política

No setor automotivo, 2026 também marca avanços importantes, especialmente em baterias. Tecnologias como baterias de sódio e baterias de estado sólido prometem reduzir custos, dependência de minerais críticos e riscos operacionais.

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Fabricantes chineses e europeus avançam rapidamente, enquanto governos ajustam metas e recuam em prazos mais agressivos para o fim dos motores a combustão.

Esse descompasso entre inovação tecnológica e hesitação regulatória reforça uma tendência já conhecida: o mercado frequentemente se move mais rápido que a política, mas nem sempre na direção desejada sem incentivos claros.

Um ano que revela prioridades

No conjunto, 2026 não será lembrado como o ano das grandes promessas climáticas. Será lembrado, se muito, como o ano em que ficou claro quem estava disposto a pagar o preço da transição.

A ação climática entrou numa fase menos idealista e mais pragmática. Menos discursos, mais fricção. Menos consenso moral, mais disputa por interesses. Como costuma acontecer nos momentos decisivos, não será a retórica que definirá o rumo, mas a capacidade de transformar regras em realidade.

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