O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse em entrevista divulgada nesta quinta-feira, 1°, que está disposto a negociar um acordo com os Estados Unidos para o combate do narcotráfico. Apesar do tom conciliatório, o chavista voltou a afirmar que o plano dos EUA é forçar uma mudança de poder em Caracas para ter acesso aos recursos naturais venezuelanos, como o petróleo. A declaração ocorre pouco após o governo americano anunciar uma operação da CIA a uma área portuária da nação caribenho supostamente usada por cartéis.
“O que eles buscam? É evidente que buscam se impor por meio de ameaças, intimidação e força”, alegou Maduro, acrescentando mais tarde que os dois países deveriam começar “a conversar seriamente, com dados em mãos”.
“O governo dos EUA sabe, porque já dissemos isso a muitos de seus porta-vozes, que se eles quiserem discutir seriamente um acordo para combater o narcotráfico, estamos prontos”, continuou ele. “Se eles quiserem petróleo, a Venezuela está pronta para investimentos dos EUA, como aconteceu com a Chevron, quando eles quiserem, onde eles quiserem e como eles quiserem.”
Ele se recusou, no entanto, a comentar sobre a primeira operação oficial da CIA em território venezuelano, confirmada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na segunda-feira 29. O ataque, segundo o republicano, consistiu em “uma grande explosão na área do cais onde carregam os barcos com drogas”. Ele também afirmou que os EUA atacaram “todos os barcos”, em referência aos bombardeios a navios no Caribe e Pacífico, acrescentando: “Agora chegamos à área de implementação… onde eles implementam, e isso não existe mais”.
Maduro ateve-se a indicar que “isso (o ataque da CIA) pode ser algo sobre o qual falaremos daqui a alguns dias”. Ele informou que não conversa com Trump desde 12 de novembro. A ligação foi descrita como “agradável” pelo venezuelano, embora tenha ponderado: “Desde então a evolução não tem sido agradável. Vamos esperar”, disse.
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Tensão no Caribe
No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington quer derrubar o ditador Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.
Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado como organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.
Há poucas semanas, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.
O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.
Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.
Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na última sexta-feira 14 revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.