O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, se reúne nesta segunda-feira (29) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na residência de Mar-a-Lago, na Flórida, em um momento de crescente preocupação internacional com a possibilidade de Israel ampliar operações militares no Oriente Médio. O encontro ocorre enquanto Washington demonstra sinais de impaciência com o impasse no cessar-fogo na Faixa de Gaza.
Esta é a quinta visita de Netanyahu aos EUA em 2025. No centro das conversas está a trégua em Gaza, firmada em outubro e responsável por interromper uma guerra de dois anos que devastou o território palestino. Embora a primeira fase do acordo tenha sido em grande parte cumprida, a implementação da segunda etapa do plano de paz de 20 pontos proposto pelos EUA enfrenta obstáculos significativos.
Na fase inicial, Israel reposicionou suas tropas e o Hamas libertou todos os reféns vivos e quase todos os mortos que estavam sob seu poder. Ainda assim, as negociações travaram. Israel resiste a retirar suas forças das áreas que hoje controla, cerca de 53% de Gaza, e impõe restrições à entrada de ajuda humanitária. Já o Hamas evita assumir compromisso explícito de desarmamento e conseguiu restabelecer sua autoridade em partes do território densamente povoadas.
Pressão americana e desgaste do cessar-fogo
Segundo o portal Axios, integrantes do alto escalão do governo Trump têm demonstrado frustração com Netanyahu, acusado de minar o cessar-fogo e atrasar o avanço do processo político. Analistas em Israel e no exterior confirmam a leitura de que a paciência americana está se esgotando.
O custo humano do conflito segue elevado. Mais de 70 mil palestinos, em sua maioria civis, morreram durante a guerra, e quase toda a população de Gaza, cerca de 2,3 milhões de pessoas, foi deslocada. Desde o início do cessar-fogo, ao menos 400 palestinos morreram, enquanto a população enfrenta frio intenso, chuvas e a destruição quase total da infraestrutura básica, segundo dados de agências da ONU.
Risco de escalada regional
Além de Gaza, há receio de que Israel retome ofensivas contra o Hezbollah, no sul do Líbano, rompendo um cessar-fogo em vigor há mais de um ano, ou amplie confrontos indiretos com o Irã. O governo israelense acusa Teerã de acelerar a produção de mísseis balísticos e de tentar recuperar danos sofridos por seu programa nuclear após confrontos recentes com Israel e os EUA.
No sábado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o país vive uma “guerra em escala total” contra EUA, Israel e Europa, classificando o atual conflito como mais complexo do que a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980.
Netanyahu deve pressionar Trump para manter o aval americano a ações preventivas contra o Irã e garantir a superioridade militar israelense na região. Autoridades em Tel Aviv ficaram alarmadas após Trump afirmar que considera autorizar a venda de caças F-35 à Arábia Saudita, o que poderia reduzir a vantagem tecnológica israelense.
Gaza no pós-guerra e impasse político
O plano americano prevê que, na fase seguinte, Gaza seja administrada por uma autoridade interina formada por tecnocratas palestinos não alinhados a facções armadas, com apoio de uma força internacional de estabilização. Segundo autoridades dos EUA, a composição desse governo provisório pode ser anunciada em janeiro.
Também estão na pauta discussões sobre um acordo de segurança entre Israel e Síria, que avançou pouco até agora, e sobre mecanismos mais eficazes para desarmar o Hezbollah, conforme previsto no acordo firmado no Líbano em 2024.
Pressões internas em Israel
No plano doméstico, Netanyahu enfrenta eleições em até dez meses. Pesquisas indicam que sua atual coalizão teria dificuldade para se manter no poder, em meio à insatisfação popular com falhas de segurança que antecederam o ataque do Hamas em 2023, isenções ao serviço militar para judeus ultraortodoxos e sucessivos escândalos políticos.