Aos 14 anos, o jovem Joseph Mallord William Turner (1775-1851) ingressou na prestigiada Royal Academy of Arts, expondo seu primeiro quadro na concorrida instituição um ano depois, ainda na adolescência. Rebatizado nos livros de história da arte com a alcunha de JMW Turner, ele se tornou um dos maiores pintores da Inglaterra, reconhecido pelo talento esplendoroso no retrato das paisagens de uma Europa transformada pela chegada da Revolução Industrial, com a névoa habitual se mesclando à fumaça das fábricas e às cores da atmosfera. Agora, completados 250 anos de seu nascimento, o mestre ganha destaque merecido em seu país de origem: a Tate Britain, em Londres, acaba de abrir uma exposição especial onde célebres trabalhos do artista, como O Incêndio das Câmaras dos Lordes e dos Comuns e Palácio e Ponte de Calígula são exibidos ao lado de obras do conterrâneo e rival John Constable (1776-1837), iluminando as contribuições da dupla para a arte e a relação tortuosa entre eles.
O retrato mais revelador, no entanto, é exposto no documentário Turner: The Secret Sketchbooks, lançado recentemente pela emissora BBC, ainda sem tradução no Brasil. Com cerca de uma hora de duração, a produção se debruça de maneira inédita sobre 37 000 esboços do pintor inglês na tentativa de preencher lacunas até hoje desconhecidas sobre sua personalidade. Entre as revelações feitas há uma possibilidade intrigante: a hipótese de que a visão única de Turner tenha sido influenciada por traumas de infância e por algum tipo de neurodivergência, como TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) ou autismo. “As aquarelas dele são extremamente meticulosas. Cada pedra, tijolo e janela precisam estar no lugar. Ele tinha um hiperfoco nisso. Claramente, Turner tinha um olhar obsessivo para os detalhes que pode indicar uma possível neurodivergência”, cogita na produção o embaixador da Sociedade Nacional do Autismo, Chris Packham, destacando também a obsessão angustiante do artista por esboçar cenários à exaustão.

Nos últimos anos, rever a obra de grandes artistas sob a ótica das questões mentais tornou-se uma fonte de estudos e descobertas fascinante. Inúmeros mestres da pintura tinham talentos sabidamente acima do ser humano médio e hábitos que apontam um funcionamento cerebral singular — em alguns casos, não apenas de maneira positiva. A produção da BBC engorda a lista de possíveis nomes que teriam lidado com condições neuroatípicas durante a vida. Além de Turner, Da Vinci já foi apontado como alguém com características vistas em pessoas com TDAH, enquanto Van Gogh, para vários especialistas, teria traços de um transtorno bipolar. Em 2004, um estudo da Trinity College, em Dublin, também sugeriu que Michelangelo talvez tivesse autismo. Nenhum desses termos, é claro, era usado no passado, e os testes hoje aplicados para o diagnóstico não existiam. Justamente por isso, é impossível cravar qualquer coisa. Embora os indícios estejam presentes, outro fator óbvio também não pode ser descartado: a simples genialidade artística.
No caso de Turner, o pintor não deixou diários, aumentando as especulações sobre sua biografia. Sabe-se que ele lidou, ao longo da vida, com traumas psicológicos. Aos 8 anos, perdeu a irmã mais nova e passou a sofrer com o luto. A situação se complicou em face dos problemas de sua mãe, Mary Turner, que tinha acessos de raiva constantes. Hoje, cogita-se que ela tivesse um quadro mental severo, como esquizofrenia ou algum tipo de psicose ou bipolaridade. “É uma situação muito vulnerável para uma criança ter um dos pais com problemas. Transforma o mundo dela em algo imprevisível e inseguro”, explica a psicóloga Orna Guralnik na produção.

A situação não melhorou para Turner com a chegada da vida adulta. Sua mãe acabou internada em um sanatório não apenas em razão das crises, mas também porque sua saúde mental se converteu em ameaça para a reputação e a carreira do filho, fazendo com que a família a mantivesse em segredo. “Viver com o fardo de ter banido a própria mãe é um peso enorme de culpa, miséria, perda e tristeza. A maneira que ele encontrou para lidar com isso foi pintar”, analisa a psicóloga. A instabilidade ao longo da vida, no entanto, não impediu que as paisagens de Turner se eternizassem. Sua bagagem, decerto, moldou seu modo peculiar e genial de ver o mundo. Eis um mestre de fato singular.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972