A Airbus determinou nesta sexta-feira, 28, o reparo imediato de 6 mil aeronaves da família A320 após identificar uma falha em um dos sistemas de controle de voo. A medida atinge mais da metade da frota global e já provoca atrasos e cancelamentos em diversos países. No Brasil, não há até o momento qualquer indicação de impacto.
O problema está no computador ELAC, responsável por transmitir os comandos do piloto para as peças que controlam a inclinação do avião, localizadas na parte traseira da aeronave. A correção exige o retorno a uma versão anterior do software e deve ser feita antes que os aviões retomem voos comerciais.
A origem do problema também elevou o nível de alerta, já que investigações apontam que radiações solares podem ter corrompido dados críticos do sistema ELAC. A falha veio à tona após um episódio no fim de outubro, quando um A320 da JetBlue, que voava de Cancún para Newark, em Nova Jersey, perdeu altitude de forma brusca e precisou fazer um pouso de emergência em Tampa, na Flórida, deixando passageiros feridos. Desde então, reguladores — incluindo a autoridade europeia de aviação — tornaram a correção obrigatória.
Ajuste em grande escala
Nos Estados Unidos, a American Airlines, maior operadora mundial de A320, informou que 340 de seus 480 aviões seriam atualizados, um processo que leva cerca de duas horas por aeronave. Outras companhias dos EUA, como Delta, JetBlue e United, também estão entre as 10 maiores operadoras da família A320.
Na América Latina, a colombiana Avianca, cuja frota depende majoritariamente do modelo, suspendeu a venda de passagens até 8 de dezembro. No México, a Volaris alertou para possíveis atrasos por até 72 horas.
Na Europa, o cenário é variado. Enquanto a easyJet e a Wizz Air afirmam já ter concluído todas as atualizações, a Air France cancelou 38 voos, cerca de 5% de sua operação diária. A Lufthansa estima “poucos atrasos”, mas ainda não detalhou quando fará os reparos em seus 156 A320. No Reino Unido, a British Airways, com apenas três aeronaves afetadas, não prevê impactos.
Na Ásia, a ANA, maior companhia aérea do Japão, cancelou 95 voos no sábado, atingindo 13,5 mil passageiros. Na Índia, mais de 330 aeronaves foram afetadas; a IndiGo, maior operadora do país, já atualizou 160 dos seus 200 aviões, mas ainda conta com atrasos.
Frota grande e falta de mão de obra
A família A320, que inclui A318, A319, A320 e A321, soma cerca de 11.300 aviões no mundo. Só o A320, lançado nos anos 1980 e pioneiro no sistema “fly-by-wire”, somam 6.440 unidades em operação. O volume é tão grande que qualquer interrupção, mesmo curta, cria ondas de impacto globais.
Soma-se ao problema o fato da cadeia de manutenção aeronáutica enfrentar escassez de mão de obra, filas de meses para revisão de motores e hangares – grande galpão, situado em um aeroporto ou heliporto, no qual estacionam-se as aeronaves para manutenção – lotados. A expectativa de especialistas é que, apesar de o reparo em si ser rápido, o efeito acumulado dessa interrupção num setor já sobrecarregado gere atrasos pontuais ao longo das próximas semanas.
“Definitivamente não é o momento ideal para um problema desses aparecer em um dos aviões mais usados do planeta”, disse Mike Stengel, da AeroDynamic Advisory, à Reuters.
Apesar disso, ele observa que, como o reparo é rápido, muitos jatos poderão passar pelo procedimento entre voos programados ou durante inspeções noturnas, o que pode facilitar o processo.