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8 de Janeiro e o plebiscito do sossego

O terceiro aniversário do 8 de Janeiro chegou como essas tempestades de verão: Brasília se apressa em medir a intensidade do trovão, enquanto o brasileiro comum corre para ver se o telhado vai aguentar. Na cerimônia, discursos solenes, rituais de Estado e a reafirmação de que a democracia resistiu. Só que, do lado de fora do Planalto — e principalmente do lado de fora da bolha política — a pergunta é outra: resistiu, ótimo. Mas o que isso muda na minha vida?

O Instituto Locomotiva vem identificando, há meses, uma mudança silenciosa no coração do eleitor. A política não está sendo decidida por ideologia, mas por organização de vida. O brasileiro não está pedindo um manifesto; está pedindo um manual de sobrevivência. E é aí que o 8 de Janeiro volta ao centro: não como um tema abstrato sobre instituições, mas como um símbolo do que o eleitor mais rejeita hoje — baderna, quebra-quebra e o prazer de transformar conflito em espetáculo.

Porque a vida real já está difícil demais para virar ringue.

A democracia, na rua, tem outro nome: “ordem”.

Em Brasília, democracia é conceito. Na rua, democracia é experiência. É voltar para casa sem medo. É abrir a porta de manhã e não encontrar a rua refém do caos. É discutir política sem a sensação de que o almoço de domingo vai terminar em briga.

Quando o brasileiro olha para o 8 de Janeiro, não está fazendo uma análise sobre “separação dos poderes”. Ele está vendo um retrato de descontrole — e descontrole, para a maioria, é sinônimo de ameaça. A sociedade brasileira, especialmente as mulheres, tem uma alergia histórica a bagunça travestida de militância. Não é conservadorismo; é cansaço. Mulher não romantiza confusão porque mulher administra o país real: o horário da escola, a conta do mês, a segurança do filho, o remédio da mãe, a comida que precisa caber no carrinho.

Quem acha que “quebra-quebra” tem apelo popular nunca teve que explicar para uma criança por que adultos “fazem bagunça” na televisão enquanto o mundo exige seriedade dentro de casa.

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O 8 de Janeiro virou, para o eleitor médio, o símbolo da política que não resolve — a política que grita, mas não entrega.

Polarização hoje é como fumaça: irrita, cansa e não alimenta ninguém.

O Brasil não está mais apaixonado pela polarização. Está intoxicado por ela. O que antes mobilizava, hoje desgasta. O que antes organizava identidade, hoje desorganiza rotina.

O Instituto Locomotiva tem observado que a polarização deixou de ser uma escolha política para virar uma condição ambiental. Como poluição. Está no ar. Está no celular. Está no grupo de família. A pessoa não “entra” na polarização; ela acorda dentro dela. E isso tem um custo emocional que as elites subestimam.

A elite acha que a polarização é debate. O Brasil real sabe que é briga. E briga é coisa que drena energia. É aquele barulho que impede a pessoa de ouvir o próprio pensamento. É como tentar dormir com obra na esquina: mesmo que você não participe, você perde o descanso.

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O 8 de Janeiro, nesse contexto, não é apenas um trauma institucional. Ele é a lembrança de até onde o fanatismo pode ir quando vira espetáculo e perde o freio.

O erro de Brasília: achar que o 8 de Janeiro decide voto sozinho.

Brasília ama a ideia de que grandes símbolos definem eleições. É a nostalgia do “Museu de Grandes Novidades”: repetir o passado como se ele ainda fosse capaz de organizar o presente. Só que 2026 não será decidida pelo que aconteceu naquele dia — será decidida pelo que o eleitor sente todos os dias.

O brasileiro não está votando para “defender a democracia” como tese. Ele está votando para defender a vida. A escolha eleitoral está se reorganizando em torno de uma pergunta simples: quem vai me devolver o sossego?

E aqui está o ponto mais importante: o 8 de Janeiro não ajuda ninguém que transforme isso em palanque permanente. Ele ajuda quem souber traduzi-lo como compromisso com ordem, previsibilidade e normalidade. Não é sobre ficar preso ao passado; é sobre garantir que ele não se repita — e seguir em frente.

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Porque a dona de casa que viu o quebra-quebra na TV não quer que a política “vença” o adversário. Ela quer que a política pare de brincar com fogo.

Anistia, punição e o sentimento de justiça: o Brasil não quer impunidade — mas também não quer novela infinita.

Quando o assunto vira punição, o brasileiro não está pedindo tecnicalidade. Está pedindo justiça com bom senso. O sentimento dominante que o Locomotiva identificou é o seguinte: quem comandou tem que pagar, quem foi levado tem que aprender. A sociedade sente que houve crime, mas rejeita tanto a impunidade quanto o uso político do tema.

E aqui aparece a armadilha da oposição e do governo.

A oposição erra se tentar transformar perdão em bandeira. Isso cola na pele como cheiro de fumaça: passa a impressão de que está defendendo bagunça. E, na cabeça do eleitor comum — especialmente na cabeça das mulheres — defender bagunça é defender insegurança.

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O governo erra se achar que basta reencenar o 8 de Janeiro como prova de virtude. Virtude sem entrega vira sermão. E sermão não enche geladeira.

O 8 de Janeiro é um marco. Mas não é um programa de governo.

O impacto real nas eleições: 8 de Janeiro empurra 2026 para “ordem versus progresso”.

O maior efeito do 8 de Janeiro nas eleições não é reabrir 2023. É acelerar 2026 na direção de um eixo que o Instituto Locomotiva vem descrevendo com clareza: ordem versus progresso.

Ordem, aqui, não é autoritarismo. É rotina funcionando. É segurança como pré-condição de liberdade. É o direito de viver sem medo e sem turbulência.

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Progresso não é discurso. É dinheiro rendendo, trabalho valendo, esperança fazendo sentido.

O eleitor não quer escolher entre “instituição” e “polarização”. Ele quer escolher entre “caos” e “vida organizada”.

E o 8 de Janeiro ficou marcado como a imagem do caos. Como a cena de um país sem freio.

O Brasil real já desistiu de  um salvador da pátria. Está pedindo um gestor de normalidade. Alguém que tire o país do modo “briga” e coloque de volta no modo “vida”. Alguém que reduza a temperatura, não que aumente o volume.

O 8 de Janeiro deixa uma lição eleitoral brutal: a democracia é silenciosa quando funciona e ensurdecedora quando falha. O eleitor quer voltar a ouvir o barulho da vida — não o barulho da política.

E se existe um recado que as mulheres já deram — e continuarão dando — é esse: não existe vitória política que compense a sensação de que o país virou bagunça.

Em 2026, não ganha quem gritar “eu estou certo”. Ganha quem provar, no cotidiano, que é capaz de devolver ao brasileiro uma coisa que virou artigo de luxo: sossego.

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